"A Verdade não precisa de defesa; por si mesma ela se defende. A Verdade precisa ser proclamada!"

02 março 2011

APARÊNCIA DE SABEDORIA


Por Natan de Oliveira


“E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens.” Marcos 7.7


Quando menino, 13 ou 14 anos, passei por uma situação ridícula da qual nunca me esqueci.



Congregávamos numa igreja, nasci e fui criado nela, onde muitas coisas (além da Escritura) eram pecado.



A lista era grande e altamente constrangedora: Cortar o cabelo (para as mulheres), deixar a barba crescer, bigode em cima do lábio (depois liberado), “bigode” abaixo do lábio (continua proibido até hoje), ir no cinema, ter televisão, ir num baile, raspar o cabelo das axilas (para as mulheres), raspar o cabelo das pernas (para as mulheres), jogar futebol, praticar esportes, usar “eslaque” (calça comprida para mulheres), usar bermuda, etc, etc...



Para não constranger os meus leitores, e os meus filhos quando tiverem idade para lerem este texto, fiquemos só com o mandamento da chamada “sã doutrina” que preceituava que a televisão era o caixão do diabo (tinha até chifre, pois as antenas eram internas, em forma de V, e ficavam sobre o aparelho televisor).



Não sei se tanto pela proibição, mas o fato é que eu menino era apaixonado por televisão.



Nas férias, visitando tios que não eram da minha igreja, nem saía de casa e passava o dia inteiro se me fosse permitido, a ver tudo o que podia.



Voltando para casa, voltava para a vida de “santidade” e nada de TV.



O lado bom disto tudo, se é que tem lado bom, foi que aprendi a ler, e li muito dos 11 aos 19 anos.



Voltemos à história de menino, aquela que é ridícula e que até hoje me envergonho da situação.



Minha mãe era costureira e eu seu menino ajudante.
Eu comprava retroses, zíper, pano, e muitos outros aviamentos de que uma costureira precisa para trabalhar. Eu era quase um especialista no ramo. As moças das lojas me conheciam de vista, haja vista que eu lá ia várias vezes por dia.



Minha mãe não esperava acumular necessidades para realizar compras, mas como me tinha sempre a disposição, sempre que ela queria, lá eu partia para comprar um metro de elástico, nem bem tinha chegado com a mercadoria, já saía para comprar uma intertela, e assim durante todo o tempo do dia em que eu não estava na escola.



Um tio meu me apelidou de “Transville”, em homenagem a uma transportadora da minha cidade.



Eu não me importava com tantas viagens, na realidade em cada uma delas eu ficava com parte do troco em forma de salário (um acordo tácito que eu tinha com minha mãe), isto custeava minhas pequenas despesas (revistinhas em quadrinhos – que também era pecado, balas, chocolates, e outras pequenas necessidades básicas de um menino).



Mas não me importava principalmente porque em cada saída eu podia ver um pouquinho de TV...



No meio caminho entre as lojas de aviamento e a minha casa, havia, uma grande loja de eletrodomésticos. 



A frente da loja era toda de vidro, e num dos cantos, na parede lateral ficavam estantes que iam do chão até o teto com vários televisores de todos os tamanhos e tipos, invariavelmente todos ligados no mesmo canal.



Eu parava e via longos pedaços da programação, depois corria para a loja de aviamentos, comprava o que era necessário, voltava para a loja do mostruário de televisores, e ficava ali do lado de fora, vendo mais um pedaço da programação, esperava a propaganda, voltava para casa, minha mãe já tinha nova necessidade, eu corria, voltava em tempo de ver mais um pedaço do filme, e assim sucessivamente até que todo o filme era visto.



Tudo no mudo.



Sim, eu ficava do lado de fora da loja, e eles eram ligados sem som.



Vi dezenas de filmes da tarde tudo no mudo, tanta era a fome e o desejo de ver TV (coisa dita proibida e pecaminosa).



Os dias se passaram...



Um dia eu estava na frente da loja, e de repente eu percebi que estava entendo o que os personagens falavam... Levei alguns segundos para entender que eu realmente estava ouvindo, mas como?



Olhei para cima e no canto da laje o gerente da loja tinha mandado instalar uma pequena caixa de som...



Quase morri de vergonha...



Nunca mais parei na frente da loja para assistir TV.



Ficava imaginando a cara do gerente com pena daquele menino, sempre passando as tardes na frente da loja vendo TV... Talvez ele tivesse algum caso na família de gente semelhante que eram proibidos por seus pastores de verem televisão... Não sei o que ocorreu, mas o fato é que possivelmente se condoeu do meu caso e mandou instalar a caixa de som... E depois ainda deve ter se frustrado e ficado sem saber o que teria levado e ocorrido para que eu nunca mais lá ficasse para ver filmes.



O que ocorreu? Me senti ridículo...
Passei a ler ainda mais.
Aos dezoito anos passei a ler a Bíblia sistematicamente da primeira até a última folha. 
Foi “a desgraça” para os meus pastores.



Um dia me deparei com alguns textos que me fizeram lembrar a minha história...



“Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados.” Colossences 2.16



“Ninguém vos DOMINE a seu BEL PRAZER, com pretexto de humildade e culto dos anjos, metendo-se em coisa que não viu; estando DEBALDE INCHADO NA SUA CARNAL COMPREENSÃO.” Colossences 2.18



“... por que vos carregam ainda de ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como: não toques, não proves, não manuseies?” Colossences 2.19b-20



Aprendi a lição, e tinha como provar biblicamente, e coragem de discordar de pastores que pregavam coisas que iam além das Escrituras, sem me sentir como alguém que estava desrespeitando o “anjo do Senhor”.



A partir de então, somente a Escritura tinha fala final nas coisas da vida cristã.
Tudo o mais eu ignorava.
Aos meus filhos e leitores eu digo e aconselho sempre o que a própria Bíblia já ensina.



Quando forem escolher um local para congregar com outros irmãos e para adorar a Deus, lembre-se:



“Tende cuidado para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofia e vãs sutilizas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo e não segundo Cristo.” Colossences 2.8



Reflitam também que:



“E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens.” Mateus 15.9



Estas doutrinas humanas que de bíblicas não tem nada, tem apenas aparência de sabedoria, e não servem para nada, são inúteis.



“As quais coisas todas perecem pelo uso, segundo os PRECEITOS E DOUTRINAS DOS HOMENS; as quais tem, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum, SENÃO PARA A SATISFAÇÃO DA CARNE.” Colossences 2.23



P.S.: Interessante notar que eu nunca vi nenhum pregador falar sobre estes assuntos de púlpito quando ainda congregava naquela igreja e o mais triste é que hoje passo de carro na frente da casa de um deles, e vejo antenas de televisão instaladas sobre a casa... Quando o padrão pregado não é o bíblico, a coisa toda acaba em ridículo... E hoje mesmo, os pastores desta igreja disputam espaços e horário para pregarem dentro do que eles chamavam de “caixão do diabo”. Tristes e ridículas lembranças. Não se deixe enganar. Fique com as Escrituras somente, mesmo que o cara diga que foi até o céu e próprio anjo Gabriel lhe revelou coisas novas.


“Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja maldito.” Gálatas 1.8

Nota: Texto gentilmente cedido pelo autor e disponível originalmente em "Reflexões Reformadas"

Um comentário:

Helvecio.p disse...

Querido irmão , é assim mesmo. Excelente texto, quase literário, mas o importante é que sobrevivemos, não nos afastando do Senhor. O que era certo ficou, o que excedia a isso, por si só se desfez. Aqueles que não amaram o Senhor acima dessas coisas pequenas e passageiras, se desviaram, não guardaram nem o que bom havia. Que pena. Deus o abençoe. Se permiir gostaria de republicá-lo em um de meus blogs.

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