"A Verdade não precisa de defesa; por si mesma ela se defende. A Verdade precisa ser proclamada!"

30 maio 2011

A Importância da Lei





por Rousas John Rushdoony
Quando Wyclif escreveu de sua Bíblia em inglês que “Esta Bíblia é para o governo do povo, pelo povo, e para o povo”, sua declaração não atraiu nenhuma atenção até onde dizia respeito sua ênfase sobre a centralidade da lei bíblica. Que a lei deveria ser a lei de Deus era mantido por todos; Wyclif afastou-se da opinião aceita ao dizer que o próprio povo deveria não somente ler e conhecer essa lei, mas também em algum sentido governar bem como ser governado por ela. Nesse ponto, Heer está correto ao dizer que “Wyclif e Hus foram os primeiros a demonstrar à Europa a possibilidade de uma aliança entre a universidade e o anelo das pessoas por salvação. Foi a liberdade de Oxford que sustentou Wyclif”.[1] A preocupação era menos com a Igreja ou Estado do que com o governo pela lei-palavra de Deus.
Brin disse, sobre a ordem hebraica social, que ela difere de todas as outras pelo fato de considerar-se fundamentada e governada pela lei de Deus, que a deu especificamente para o governo do homem.[2] Não menos que o Israel antigo, o cristianismo acredita ser o reino de Deus porque é governado pela lei de Deus como apresentada na Escritura. Há afastamentos dessa lei, variações dela, e lassidão na fidelidade a ela, mas o cristianismo se vê como o novo Israel de Deus e não menos sujeito à Sua lei.
Quando a Nova Inglaterra começou sua existência como entidade legal, sua adoção da lei bíblica foi tanto um retorno à Escritura como um retorno ao passado da Europa. Foi um novo começo em termos dos antigos fundamentos. Não foi um começo fácil, visto que muitos dos servos que vieram com os puritanos mais tarde estavam em plena revolta contra a fé e ordem bíblica.[3] Todavia, foi um retorno resoluto aos fundamentos do cristianismo. Dessa forma, os registros da colônia de New Haven mostram que a lei de Deus, sem qualquer sentido de inovação, tornou-se a lei da colônia:
2 de março de 1641/2: E conforme o acordo fundamental, realizado e publicado por consentimento pleno e geral, quando iniciou-se a plantação e o governo foi estabelecido, de que a lei judicial de Deus dada por Moisés e exposta em outras partes da Escritura, visto ser um limite e uma cerca para a lei moral, e não ter nenhuma referência cerimonial ou típica à Canaã, tem uma equidade eterna nela, e deve ser a regra dos procedimentos da colônia.[4]
3 de abril de 1644: Ordenou-se que as leis judiciais de Deus, como entregues por Moisés… sejam a regra para todos os tribunais nesta jurisdição em seus procedimentos contra ofensores…”.[5]
Thomas Shepard escreveu, em 1649, “Pois todas as leis, quer cerimoniais ou judiciais, podem ser remetidas ao decálogo, como apêndices a ele, ou aplicações dele, e assim abranger todas as outras leis como seu resumo”. [6]
É uma ilusão sustentar que tais opiniões eram simplesmente uma aberração puritana, e não uma prática verdadeiramente bíblica e um aspecto da vida persistente do cristianismo. É uma heresia moderna a que sustenta que a lei de Deus não tem nenhum significado ou nenhuma força obrigatória para o homem de hoje. É um aspecto da influência do pensamento humanista e evolucionário sobre a igreja, e ele postula um deus que evolui e se desenvolve. Esse deus “dispensacionalista” se expressou na lei numa época antiga, então mais tarde se expressou pela graça somente, e agora talvez se expresse de alguma outra maneira. Mas esse não é o Deus da Escritura, cuja graça e lei permanecem a mesma em todas as épocas, pois ele, como o Senhor soberano e absoluto, não muda, nem precisa mudar. A força do homem é a perfeição do seu Deus.
Tentar estudar a Escritura sem estudar a sua lei é negar a Escritura. Tentar entender a civilização ocidental à parte do impacto da lei bíblica dentro dela e sobre ela é procurar uma histórica fictícia e rejeitar vinte séculos e todo o seu progresso.
As Institutas da Lei Bíblica tem como seu propósito uma inversão da tendência atual. Ela é chamada “Institutas” no significado antigo dessa palavra, i.e., princípios fundamentais, neste caso, da lei, pois a intenção é ser um começo, instituindo uma consideração dessa lei que deve governar a sociedade, e que governará a sociedade sob Deus.

[1] Friedrich Heer, The Intellectual History of Europe (Cleveland: The World Publishing Co., 1966), p. 184.
[2] Joseph G. Brin, “The Social Order Under Hebrew Law,” The Law Society Journal, vol. VII, no. 3 (August, 1936), pp. 383-387.
[3] Henry Bamford Parkes, “Morals and Law Enforcement in Colonial England,” The New England Quarterly, vol. 5 (July, 1932), pp. 431-452
[4] Charles Hoadly, ed., Records of the Colony and Plantation of New Haven from 1638 to 1649 (Hartford: for the Editor, 1857), p. 69.
[5] Ibid., p. 130.
[6] John A. Albro, ed., The Works of Thomas Shepard, III, Theses Sabbatical (1649) (Boston: Doctrinal Tract and Book Society, 1853; New York: AMS Press, 1967), p. 49.
Fonte: Monergismo
Fonte: Extraído da introdução do excelente livro The Institutes of Biblical Law, Volume 1.
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto – maio/2011

29 maio 2011

A Constituição "conforme" o STF


Por Ives Gandra da Silva Martins
Escrevo este artigo com profundo desconforto, levando-se em consideração a admiração que tenho pelos ministros do Supremo Tribunal Federal brasileiro, alguns com sólida obra doutrinária e renome internacional. Sinto-me, todavia, na obrigação, como velho advogado, de manifestar meu desencanto com a sua crescente atuação como legisladores e constituintes, e não como julgadores.
À luz da denominada “interpretação conforme“, estão conformando a Constituição Federal à sua imagem e semelhança, e não àquela que o povo desenhou por meio de seus representantes.
Participei, a convite dos constituintes, de audiências públicas e mantive permanentes contatos com muitos deles, inclusive com o relator, senador Bernardo Cabral, e com o presidente, deputado Ulysses Guimarães.
Lembro-me que a ideia inicial, alterada na undécima hora, era a de adoção do regime parlamentar. Por tal razão, apesar de o decreto-lei ser execrado pela Constituinte, a medida provisória, copiada do regime parlamentar italiano, foi adotada.
Por outro lado, a fim de não permitir que o Judiciário se transformasse em legislador positivo, foi determinado que, na ação de inconstitucionalidade por omissão (art. 103, parágrafo 2º), uma vez declarada a omissão do Congresso, o STF comunicasse ao Parlamento o descumprimento de sua função constitucional, sem, entretanto, fixar prazo para produzir a norma e sem sanção se não a produzisse.
Negou-se, assim, ao Poder Judiciário, a competência para legislar.
Nesse aspecto, para fortalecer mais o Legislativo, deu-lhe o constituinte o poder de sustar qualquer decisão do Judiciário ou do Executivo que ferisse sua competência.
No que diz respeito à família, capaz de gerar prole, discutiu-se se seria ou não necessário incluir o seu conceito no texto supremo -entidade constituída pela união de um homem e de uma mulher e seus descendentes (art. 226, parágrafos 1º, 2º, 3º, 4º e 5º)-, e os próprios constituintes, nos debates, inclusive o relator, entenderam que era relevante fazê-lo, para evitar qualquer outra interpretação, como a de que o conceito pudesse abranger a união homossexual.
Aos pares de mesmo sexo não se excluiu nenhum direito, mas, decididamente, sua união não era -para os constituintes- uma família.
Aliás, idêntica questão foi colocada à Corte Constitucional da França, em 27/1/2011, que houve por bem declarar que cabe ao Legislativo, se desejar mudar a legislação, fazê-lo, mas nunca ao Judiciário legislar sobre uniões homossexuais, pois a relação entre um homem e uma mulher, capaz de gerar filhos, é diferente daquela entre dois homens ou duas mulheres, incapaz de gerar descendentes, que compõem a entidade familiar.
Este ativismo judicial, que fez com que a Suprema Corte substituísse o Poder Legislativo, eleito por 130 milhões de brasileiros – e não por um homem só -, é que entendo estar ferindo o equilíbrio dos Poderes e tornando o Judiciário o mais relevante dos três, com força para legislar, substituindo o único Poder que reflete a vontade da totalidade da nação, pois nele situação e oposição estão representadas.
Sei que a crítica que ora faço poderá, inclusive, indispor-me com os magistrados que a compõem. Mas, há momentos em que, para um velho professor de 76 anos, estar de bem com as suas convicções, defender a democracia e o Estado de Direito, em todos os seus aspectos, é mais importante do que ser politicamente correto.
Sinto-me como o personagem de Eça, em “A Ilustre Casa de Ramires“, quando perdeu as graças do monarca:“Prefiro estar bem com Deus e a minha consciência, embora mal com o rei e com o reino”.
Publicado no Jornal "Folha de São Paulo", em 20 de Maio de 2011

22 maio 2011

Por que ler os Puritanos hoje?


Escrito pelo Rev. Don Kistler e publicado pela Soli Deo Gloria Publications, Morgan, PA, 1999.
Título original: "Why Read the Puritans Today?"
(Tradução: Nelson Ávila)
Obs: São proibidas cópias ou reproduções deste material para fins lucrativos sem a expressa autorização do autor. Todos os direitos reservados a Copyrighted.
Para minha filha Michelle Anne, cujo semblante encantador é meramente o reflexo de uma arrebatadora beleza de espírito interior.
Há um encorajador ressurgimento do interesse nos Puritanos e seus escritos em nossos dias. Existem algumas razões para isto. Uma é que as pessoas estão se cansando da religião que oferece coisas que não pode dar. Promessas são feitas, mas as pessoas vêm para aquelas promessas com interesse próprio; e quando as coisas prometidas não se materializam elas ficam desapontadas. Segundo, algumas pessoas estão cansadas da fraca e superficial religião. A maioria das pessoas não louva a Deus porque o Deus do qual eles ouvem falar realmente não é digno de louvor. Ele não é o “alto e sublime.” Ele não é o “Senhor Deus onipotente que reina eternamente.” Ele é apenas “meu amigo,” e a familiaridade nesta área certamente gera desprezo!
Nos Puritanos, as pessoas encontram homens que foram apaixonados e obcecados com o conhecimento de Deus. Eu listei algumas razões do porque nós devemos ler os Puritanos hoje, e cada uma delas é derivada da visão Puritana de Deus e da Escritura.
1. Eles elevarão seu conceito de Deus a um nível que você provavelmente nunca pensou ser possível, e mostrarão a você um Deus que é verdadeiramente digno de seu louvor e adoração. Jeremiah Burroughs, em seu livro clássico Gospel Worship, disse “A razão pela qual louvamos a Deus de forma negligente é porque nós não vemos Deus em Sua glória.” O homem moderno ouve sobre um deus que não é digno de louvor. Por que ele deveria louvar um Deus que quer fazer o bem, mas não pode fazê-lo só porque o homem não quer cooperar! Quem então é soberano? O homem é!
Talvez uma espécie de aviso seja necessário neste ponto. Uma vez que você começar a ler os Puritanos, você poderá sentir-se, em uma noção espiritual, um pouco solitário. Você começará a ser estimulado sobre o que está lendo e sentindo em seu coração, e então perceberá que não há muitos outros que sabem sobre o que você está falando. E isto pode ser realmente solitário! Quando você começar a ter a visão que Isaías tem de Deus em Isaías 6, e perceber que a realidade de Deus está infinitamente além de qualquer coisa que sua mente possa compreender plenamente, você perceberá que o homem comum não pensa muito sobre Deus de fato, muito menos no nível profundo em que você está pensando.
Uma das razões de pensarmos tão deficientemente é por lermos tão pouco. A leitura nos ajuda a pensar; e nós vivemos numa cultura fotográfica agora, ao invés de uma cultura tipográfica. A maior parte da comunicação é feita através de imagens, vídeos e filmes. O trabalho de pensar é todo feito para nós, e então não somos forçados a lutar com conceitos. Um outro alguém interpreta o que é importante para nós em imagens. Nos dias dos Puritanos, palavras eram congeladas em uma página e forçavam você a lidar com os pensamentos expressados.
O escritor moderno Neil Postman tem lidado com isto extensivamente em seu livroAmusing Ourselves to Death. Ele mostra a importante relação entre ler e pensar. Os puritanos eram, acima de tudo, grandes pensadores; e não é coincidência que eles também eram grandes leitores.
2. Os Puritanos tinham um “caso de amor”, se você preferir, com Cristo; eles escreveram bastante sobre a beleza de Cristo. Um dos maiores Puritanos foi Thomas Goodwin, um Congregacional. Escrevendo a respeito do céu, Goodwin disse, “Se eu estivesse indo para o céu, e descobrisse que Cristo não estava lá, eu iria embora imediatamente; pois um céu sem Cristo seria um inferno para mim.” Céu sem Cristo não é céu, disse Goodwin, e se Cristo não estivesse lá ele não desejava estar lá; pois é a presença de Cristo que fez o céu tão celestial.
James Dunhan escreveu isto sobre Cantares 5:16 (“Ele é totalmente desejável”) em sua aplicação do sermão: “Se Cristo é totalmente desejável, então tudo o mais é totalmente repugnante.” Nós não sentimos dessa maneira a respeito de Cristo, sentimos? Nós queremos um pouco de Cristo, e um pouco de muitas outras coisas. Mas os verdadeiros Cristãos desejam Cristo e nada mais além de Cristo.
Samuel Rutherford, o grande teólogo Escocês, escreveu isto sobre a beleza de Cristo numa carta a um amigo:
Eu ouso dizer que as canetas dos anjos, línguas dos anjos, ou melhor, em tantos mundos de anjos quanto existam gotas de água em todos os mares, fontes e rios da terra, não são capazes de descrevê-lO para você. Acho que Sua doçura tem crescido sobre mim com a grandeza de dois céus. Ó, pois uma alma precisaria ser tão vasta quanto o círculo máximo dos mais altos céus para conter Seu amor! E ainda assim eu agarraria muito pouco dele. Ó, que visão, ser arrebatado ao céu, naquele belo pomar do Novo Paraíso, e ver, e sentir o aroma, e tocar, e beijar aquele belo campo de flores, aquela perene árvore da vida! Sua simples sombra seria o bastante para mim; uma visão dEle seria o céu para mim.
Se houvessem dez mil milhares de milhões de mundos, assim como muitos céus, cheios de homens e anjos, Cristo não seria afligido para atender todas as nossas necessidades, e para nos preencher a todos. Cristo é uma fonte de vida; mas quem sabe quão profunda é sua parte mais funda? Coloque a beleza de dez milhares de milhares de paraísos, como o Jardim do Éden, em um; coloque todas as árvores, todas as flores, todos os aromas, todas as cores, todos os sabores, todas as alegrias, todos os encantos e todas as doçuras em um. Ó, que bela e excelente coisa seria esta? E ainda assim seria menor que o mais belo e precioso bem-amado Cristo, tal qual seria uma gota de chuva para todos os mares, rios, lagos e fontes de dez mil planetas.
Este é alguém que ama a Cristo, não é?
3. Os Puritanos nos ajudarão a compreender a suficiência de Cristo. Isto está sob grande ataque em nossa igreja moderna. Você pode ter Cristo para salvá-lo, mas você precisa de psicologia para ajudá-lo com a vida, somos informados. Você pode ter Cristo para salvá-lo e ajudá-lo com suas feridas espirituais, mas você precisa de algo mais para aquelas “profundas dores emocionais” que você está sentindo.
Há um título por Ralph Robinson, um contemporâneo de Thomas Watson em Londres,Christ All and In All [“Cristo é Tudo em Todos” – N. do T.]. Robinson escreveu cerca de 700 paginas sobre Colossenses 3:11, “Cristo é tudo e em todos.” É sobre nossa deficiência em compreender a suficiência de Cristo que trata a tiragem. Se Cristo é tudo em todos, como podemos procurar em algo ou alguém mais por respostas?
Em seu livro The Saints’ Treasury, Jeremiah Burroughs tem um sermão sobre aquele mesmo versículo de Colossenses. Burroughs faz esta afirmação: “Certamente Cristo é um objeto suficiente para a satisfação do Pai.” Nenhum de nós questionaria isto, não é? Isaias nos diz que Deus verá o resultado da angústia de Sua alma e ficará satisfeito. Assim, Cristo é o bastante para satisfazer o Pai.
Em seguida, Burroughs continua: “Certamente, então, Cristo é um objeto suficiente para a satisfação de qualquer alma!” Você segue o raciocínio? Para aqueles Cristãos que gastam tanto tempo lamentando sobre sua sorte na vida como se Cristo não fosse o bastante, Burroughs diria, “Que blasfêmia dizer que Cristo é o bastante para satisfazer a Deus, mas Ele não é o bastante para satisfazer você!” Muito antes de haver um Freud, um Puritano tinha resolvido o problema da moderna psycho-babble que tanto tem encantado a igreja de hoje.
4. Os Puritanos nos ajudam a ver a suficiência das Escrituras para a vida e a piedade. Pedro disse que a Escritura nos dá o conhecimento de Deus, o qual nos dá todas as coisas pertencentes a vida e a piedade. Você já ouviu o grito de guerra da humanidade hoje, não ouviu? “Eu estou procurando por auto-estima,” ou, “Eu só quero me sentir bem comigo mesmo.” Deixem-me assegurá-los, meus amigos, que vocês não precisam de auto-estima; vocês precisam da estima de Cristo! Isaias descobriu quem Deus era e então Isaias soube quem Isaias era! O problema de Isaias foi que ele não gostou do que encontrou em si mesmo!
Em Saints’ Treasury de Burroughs, seu primeiro sermão é intitulado “A Incomparável Excelência e Santidade de Deus,” baseado em Êxodo 15:11: “Quem é como Tu, Ó Deus, entre as nações?” Burroughs escreve metade do sermão sobre o esplendor de Deus. Então, ele traz na segunda metade do verso: “e quem é como tu, Ó Israel?” Qual é o ponto? Desde que não há ninguém como o seu Deus, não há ninguém como você! Você não precisa ter auto-estima para se sentir bem consigo mesmo; você precisa ter a estima de Cristo ¾ você precisa se sentir bem com Deus!
Se o homem é criado à imagem e semelhança de Deus, como pode alguém sequer ter uma falta de auto-estima! Se você é um Cristão, Cristo trocou, uma pela outra, a vida dEle pela sua vida. Isto é o que realmente tem valor!
Os Puritanos eram verdadeiros conselheiros bíblicos, e entenderam que o melhor aconselhamento toma lugar no púlpito quando a Palavra de Deus é aberta, exposta e aplicada. Cerca de 300 anos atrás, Isaac Ambrose escreveu em seu livro The Christian Warrior sobre o perigo de aconselhar-se com homens que não estão mergulhados na Escritura:
A alma ferida, que está buscando por conforto, nunca deve procurar o conselho de homens não regenerados; esta não é a maneira designada por Deus. Ai de ti! Tais homens pensarão que você é louco, pois eles não sabem o que problemas por pecado significam. Por que, então, revelar sua doença para aqueles que não são médicos? Vá para Aquele que cura todo tipo de doenças, para que Deus o direcione. Quando Paulo se converteu pela graça divina, ele não consultou carne e sangue, mas instantaneamente obedeceu a Deus. É assim que você deve fazer. Deus, por Seu ministério, o convenceu do perigo dos maus caminhos e da sua obrigação de vir a Ele para ter segurança e conforto? Obedeça instantaneamente, e não se consulte com carne e sangue.
O que seus companheiros pecadores o oferecem não é adequado para a cura de sua alma triste e enferma de pecado. O que podem companheiros inúteis fazer para aquietar sua consciência, perdoar seu pecado, sustentar seu espírito, ou enchê-lo com alegria espiritual? Ai de ti! Todas as alegrias deles, “são apenas o crepitar de espinhos debaixo de uma panela;” sonhos e vaidades de suas mais altas alegrias. Que acordo há entre alegria carnal e tristeza espiritual? Não mais que entre a luz e as trevas. Dispense todos eles; afaste-se das tendas destes homens ímpios, e não toque em nada deles, para não ser consumido em todos os seus pecados.
Há uma riqueza de conselhos piedosos nos escritos destes homens. Os Puritanos entenderam que problemas espirituais necessitavam de soluções espirituais. Os conselheiros de hoje não pensam em termos de pecado ou problemas da alma, ainda que seja isso o que psicologia significa ¾ o estudo da alma. O problema é que hoje todo mundo é uma vítima do comportamento de alguma outra pessoa; mas isto não é novidade hoje ¾ o jogo da culpa começou no Jardim do Éden. Adão culpou Eva; Eva culpou a serpente. E nenhum deles poderia culpar sua família disfuncional!
Deus, que criou a alma, e que morreu para redimir a alma, sabe melhor como tratar a alma. E aqueles homens que estão mais familiarizados com Deus são mais capazes de proporcionar cura para a alma. De fato, os Puritanos eram chamados “médicos da alma.” Thomas Watson escreveu um tratado intitulado “Pecado é uma Doença da Alma¾ Cristo é um Médico da Alma”, o qual está contido em The Sermons of Thomas Watson.
5. Os Puritanos podem nos ensinar acerca da hedionda natureza do pecado. Edward Reynolds escreveu um livro chamado The Sinfulness of Sin [A Malignidade do Pecado]; Jeremiah Burroughs escreveu The Evil of Evils [O Mal dos Males]. Não há doutrina que seja mais importante para a ortodoxia do que esta, porque se você estiver por fora da doutrina do pecado, estará por fora de qualquer outra doutrina. Este é o fio que desfiará o suéter teológico inteiro. Watson escreveu uma obra-prima em quatro curtos sermões intitulados The mischief of Sin [A Injúria do Pecado].
Burroughs escreveu 67 capítulos sobre esta premissa: O pecado é pior que o sofrimento; mas as pessoas farão tudo o que podem para evitar o sofrimento, mas quase nada para evitar o pecado. O pecado é pior que o sofrimento, contudo, porque o pecado dá origem ao sofrimento. Burroughs traça o ponto de que o pecado é pior que o inferno, porque o pecado originou o inferno. E a coisa que dá origem é maior do que a que é originada.
Obadiah Sedgwick, um proeminente presbiteriano de Londres que era membro da Assembléia de Westminster, escreveu um penetrante livro intitulado The Anatomy of Secret Sins [A Anatomia dos Pecados Ocultos], um tratado inteiro sobre a peleja de Davi para libertar-se dos pecados ocultos, daqueles pecados escondidos profundamente nos recantos de nossos corações que ninguém mais além de nós e Deus sabem que estão lá, mas que são tão perversos e condenáveis quanto qualquer outro pecado.
Jonathan Edwards disse isso sobre o pecado: “Todo pecado é de proporção infinita, e é mais ou menos hediondo, dependendo da honra da pessoa ofendida. Desde que Deus é infinitamente santo, o pecado é infinitamente mal.” Isto é o porquê de não haver tal coisa como um pecadinho, pois o menor pecado é um ato de traição cósmica cometido contra um Deus infinitamente santo. Não se ouve mais muitas verdades como essa.
Este material, em seu puro valor literário, é simplesmente inestimável. Em “Pecadores nas Mãos de um Deus Irado” (contido em nosso livro The Wrath of Almighty God [A Ira do Deus Todo-Poderoso]), de Edwards, a imagem é sem igual. Ele compara Deus a um arqueiro com um arco firmemente esticado e com uma flecha apontada direto para o coração do pecador; os braços do arqueiro estão tremendo porque o arco está sendo puxado com muita força, e ele diz que a única coisa que impede Deus de deixar que a flecha voe e se afogue no sangue do pecador é a mera boa vontade de um Deus que está infinitamente irado com o pecado todos os dias. Um escritor secular que estava pesquisando sobre Edwards recebeu esta pergunta de um cristão: “Você sabe, se Edwards estiver certo, que a flecha está apontada para o seu coração. Como você pode dormir à noite?” A resposta foi esta: “Algumas vezes eu não consigo! Eu só peço a Deus que ele esteja errado!”
6. Os Puritanos nos ajudarão com a vida prática. O Christian Directory de Richard Baxter tem sido considerado por Tim Keller “o maior manual sobre aconselhamento jamais produzido”. Antes deste século, a maior parte do aconselhamento era feita do púlpito ou durante a visita pastoral ao lar para catequizar a família. Os pastores eram vistos como os médicos da alma. Curiosamente, a própria palavra “psicologia” significa estudo da alma. A palavra latina suke, da qual obtemos a palavra grega psyche, da qual temos “psicologia”, significa “alma.” Mas o que era usado para a cura de almas pecadoras tem se tornado a cura para mentes doentias. Isto tem sido tirado do pastor ¾ que deve conhecer a alma melhor ¾ e dado aos conselheiros, muitos dos quais nem sequer crêem em Deus. Eles não podem curar doenças espirituais. O Directory de Baxter demonstra a capacidade de um homem que poderia aplicar as Escrituras a todas as áreas da vida. J. I. Packer o chama de o maior livro cristão já escrito depois da Bíblia. Com endossos como estes, você pode perceber o porque deste livro ter vendido milhares de cópias.
Nessa mesma linha, considere A Prática da Piedade de Lewis Bayly como um modelo de um manual devocional Puritano. O popular autor e pregador Alistair Begg recomenda altamente este livro. A idéia era a de regular inteiramente a vida e o dia de uma pessoa pela Escritura. Dr. John Gerstner disse que este livro deu início ao movimento Puritano.
Não havia nenhuma área da vida que os Puritanos acreditassem que não necessitasse ser regulada pela Escritura. Mesmo seu tempo a sós deveria ser disponibilizado para uso piedoso. Nathanael Ranew escreveu uma boa obra intitulada Solitude Improved by Divine Meditation. Esta é a clássica obra Puritana sobre meditação espiritual. Sua premissa é a de que mesmo quando você está sozinho pode “melhorar” o tempo empregando sua mente em um bom uso, meditando sobre Deus e Seus atributos. Se houvesse um décimo primeiro mandamento para os Puritanos, seria: “Não desperdiceis tempo.”
Os Puritanos escreviam esses tipos de manuais freqüentemente. John Preston pregou 5 sermões em 1 Tessalonicenses 5:17 sobre oração, os quais ele deu o título de The Saint’s Daily Exercise [O Exercício Diário dos Santos]. Eles estão incluídos na compilação The Puritans on Prayer.
Dr. R. C. Sproul escreveu um prefácio para A Treatise on Earthly-Mindedness de Jeremiah Burroughs. Aqui está um livro inteiro sobre o grande pecado de pensar como o mundo pensa ao invés de pensar os pensamentos de Deus diante dEle. Quantos confessaram este pecado noite passada antes de dormir?
Os Puritanos eram muito pastorais, além de serem muito teológicos. Há uma grande dose de conforto em seus escritos. Aqui está uma citação de meu pregador Puritano favorito, Christopher Love, a respeito de quem eu escrevi um livro intitulado A Spectacle Unto God. Muitas das obras de Love têm sido reimpressas. O seguinte excerto é de seu sermão sobre crescimento na graça, do livro intitulado simplesmenteGrace:
Não olhe tanto para seus pecados, mas olhe para sua graça também, embora fraca. Cristãos fracos olham mais para seus pecados do que para suas graças; mas Deus olha para suas graças e não toma conhecimento de seus pecados e fraquezas. O Santo Espírito disse, “Ouvistes da paciência de Jó.” Ele poderia ter dito também, “Ouvistes da impaciência de Jó,” mas Deus avalia Seu povo não pelo que éruim neles, mas pelo que é bom neles. Menção é feita do acolhimento de Raabe aos espias, mas nenhuma menção é feita de que ela contou uma mentira quando assim o fez. Aquilo que foi bem feito foi mencionado para louvor dela, e o que foi errado, está enterrado no silêncio, ou, pelo menos, não é registrado contra ela nem cobrado dela. Quem desenhou o retrato de Alexander, com sua cicatriz na face, o fez com o dedo sobre sua cicatriz. Deus coloca o dedo de misericórdia sobre as cicatrizes de nossos pecados. Ó como é bom servir um Mestre tal, que está pronto para recompensar o bem que fazemos, e está pronto para perdoar e passar por aquilo que está errado. Portanto, você que tem tão pouca graça, lembre-se ainda que Deus terá Seus olhos sobre esta pequena graça. Ele não apagará o pavio que fumega, nem quebrará a cana trilhada.
7. Os Puritanos nos ajudarão com o evangelismo que é bíblico. A maioria do evangelismo de hoje é homocêntrico. O evangelismo Puritano era Teocêntrico. Os Puritanos tinham uma outra doutrina que tem sido largamente perdida hoje, e ela atende pelo nome de “busca” ou “preparação para a salvação”. Ela foi difundida entre os Puritanos ingleses e os Reformadores. Foi ensinada por Jonathan Edwards em seu sermão “Pressing into the Kingdom”, mas antes disso, por seu avô, Solomon Stoddard em A Guide to Christ [Um Guia para Cristo], o qual o Dr. Gerstner chamou de o melhor manual sobre evangelismo Reformado que já conheceu. Considere também o livro Heaven Taken by Storm [O Céu Tomado de Assalto] de Thomas Watson, o qual lida com “a santa violência” necessária para conquistar os portões do céu.
A idéia principal desta doutrina de busca ou preparação é esta: Deus trabalha através de meios, e se um homem deseja ser salvo ele deve valer-se desses meios.
Deixe-me exemplificar: A fé vem pelo ouvir, certo? E os homens são salvos pela graça através da fé. Mas se preciso de fé para agradar a Deus, e percebo que não tenho essa fé em mim para crer em Deus sabiamente, o que devo fazer?
Aqui é onde a “busca” se apresenta. Se a fé vem pelo ouvir então eu devo ouvir alguém pregar um sermão ortodoxo sobre Cristo. Se Deus está indo me salvar, Seu meio normal é através da pregação do evangelho. Deus não está sob a obrigação de me salvar se eu ouvir um sermão, mas não é provável que Ele me salve sem que eu ouça um sermão sobre Cristo.
O pecador, portanto, deve fazer tudo em seu poder natural para tornar seu coração menos duro do que ele já é. Todo pecado endurece o coração para tudo mais. Esta busca ainda é pecado ¾ desde que o pecador não pode fazer nada além de pecar ¾mas pelo menos não é tão pecaminoso quanto não fazê-lo! Ele não está tornando a si mesmo agradável a Deus por meio de sua busca (já que ele está fazendo isso por interesse próprio), mas ele está tornando a si mesmo menos ofensivo a Deus ao invés de mais ofensivo. E mesmo que Deus não o salve, sua punição no inferno será menor. E os Puritanos diriam, “Se você não pode ir a Deus com um coração justo, então vá a Deuspor um coração justo.” Para ser preciso, isto não é buscar o Senhor, já que a Escritura deixa claro que ninguém busca o Senhor, mas isto é buscar a salvação. E ninguém obtém a salvação por buscar, mas eles provavelmente não serão salvos aparte disto.
8. Ler os Puritanos ajudará a estabelecer as prioridades certas. 2 Coríntios 5:9 diz, “Temos como nossa ambição sermos agradáveis ao Senhor.” Um Puritano disse isto dessa forma, “O sorriso de Deus é minha maior recompensa, e Seu franzir de sobrancelhas meu maior temor.” Se é verdade que nos tornamos como as pessoas com quem gastamos nosso tempo, então é um investimento para a eternidade gastar nosso tempo com os Puritanos. O livro Gospel Fear de Jeremiah Burroughs trata sobre ter a prioridade certa. Há sete sermões sobre Isaías 66:2, a respeito do que significa tremer da Palavra de Deus. Se Deus diz “Para ele olharei, aquele que treme da Minha Palavra”, então, seria melhor saber o que é tremer da Palavra de Deus!
9. Os Puritanos podem nos ajudar a esclarecer a questão de como um homem é feito justo diante de Deus. Outro título de Solomon Stoddard que recomendo altamente é sua obra sobre a justiça imputada, intitulada The Safety of Appearing on the Day of Jugament in the Righteousness of Christ [A Segurança de Comparecer no Dia do Julgamento na Justiça de Cristo]. Não posso superenfatizar a importância de se examinar sobre esta questão de justiça imputada nestes dias, quando muitos não estão inquirindo sobre a diferença eterna entre justiça imputada e justiça infusa. A diferença entre estas duas posições não é simplesmente a distância entre Roma e Genebra; é a distância entre céu e inferno.
Gostaria de recomendar a você a leitura do título contemporâneo Justification by Faith ALONE! [“Justificação pela Fé SOMENTE!” ¾ Publicado pela editora Cultura Cristã ¾ N. do T.]. Se você quer especificamente um titulo Puritano, considere The Puritans on Conversion [“Os Puritanos e a Conversão” ¾ Publicado pela editora PES ¾ N. do T.]. Ou, se você acha que está preparado para as coisas “difíceis”, tente o livro de Matthew Mead, o título Puritano best-seller da Soli Deo Gloria, The Almost Christian Discovered. Mead apresenta 26 coisas que uma pessoa deve fazer como um cristão, mas fazê-las não prova que ele é um cristão de verdade ¾ apesar de que não fazê-las prova que ele não era um Cristão! Isto não é para os covardes!
10. Finalmente, vamos examinar os Puritanos e a autoridade da Palavra. Sabemos que a Escritura é Deus falando a nós. O clássico versículo em Timóteo nos diz que: “Toda a Escritura é dada por inspiração de Deus (literalmente, foi soprada por Deus)...” E sabemos que, o que quer que Deus diga, devemos obedecer. De fato, isto foi o que o povo de Deus do Antigo Testamento compreendeu. Em Êxodo 24:3-7 eles declaram, “Tudo o que o Senhor tem falado nós faremos, e seremos obedientes.” Não há algo que Deus diga que não devamos fazer.
Os teólogos Puritanos que compuseram a Confissão de Fé de Westminster escreveram, “A autoridade das Sagradas Escrituras, pela qual deve ser obedecida, não depende do testemunho de qualquer homem, ou Igreja; mas inteiramente de Deus (que é a própria verdade) seu Autor; e por essa razão deve ser recebida por ser a Palavra de Deus.”
Sabemos que quando Deus fala devemos ouvir. De fato, uma grande parte da Grande Comissão é ensinar pessoas a se submeterem a autoridade da Palavra de Deus! Mateus 28:18-20, “... ensinando-os a observar tudo o que vos tenho mandado.”
Isto é o que admirava as pessoas quando Jesus ensinava. Mateus 7:28, 29 diz que quando Jesus ensinava, as pessoas se admiravam; e acho que isto faz dEle um pregador admirável. Qual era a base para a admiração deles? “Ele ensinava como tendo autoridade, e não como os Escribas e Fariseus.”
É exatamente assim que os pregadores devem pregar, com autoridade. É um mandamento de Deus que eles assim o façam. Tito 2:15: “Fala estas coisas, exorta e repreende com toda autoridadeNinguém te despreze.” Enquanto a maioria de nós certamente afirmaria que se Deus dissesse algo o obedeceríamos, esquecemos que o ministro fiel é Deus falando a nós hoje. A visão Reformada do ministério do púlpito é a de que quando um ministro fiel está expondo a Palavra de Deus, é a voz de Deus que você está ouvindo, não a de um homem; e isto significa que ela deve ser obedecida.
Mas, o que você ouve após o sermão? Na melhor das hipóteses você ouvirá, “Isto é interessante; terei que pensar a respeito.” Mas Deus nunca nos deu Sua Palavra para opinarmos ou pensarmos a respeito. Ele nos deu Sua Palavra para obedecermos.
O Puritano Thomas Taylor escreveu:
A Palavra de Deus deve ser entregue de uma maneira tal que a majestade e a autoridade dela seja preservada. Os embaixadores de Cristo devem comunicar Sua mensagem assim como Ele mesmo a pronunciaria. Um ministério bajulador é um inimigo desta autoridade; pois quando um ministro tem que cantar placebos e doces canções, é impossível para ele não trair a verdade. Resistir a esta autoridade, ou enfraquecê-la, é um pecado terrível, seja em homens de alta ou baixa posição; e o Senhor não permitirá que Sua mensagem seja removida. Os ouvintes devem (a) orar pelos seus mestres, para que eles possam entregar a Palavra com autoridade, ousadia e boca aberta; (b) não confunda essa autoridade nos ministros com raiva ou amargura, e muito menos com loucura; e (c) não se recuse a entregar-se em submissão a esta autoridade, nem fique zangado quando ela recair sobre alguma prática com a qual eles estiverem relutantes em tomar parte; pois é certo que Deus retira a luz daqueles que rejeitam a luz oferecida.
Deuteronômio 30:20 equipara amar a Deus com obedecer a Sua voz. De fato, ele diz que é como amamos a Deus. Foi assim que os Puritanos encararam a Escritura. E se quisermos conhecer a Deus da maneira como eles o fizeram, devemos amar Sua Palavra do modo como eles a amaram. Este amor só aumentará através de estudo diligente e intensivo. E ler os Puritanos é a próxima melhor coisa. Na verdade, é como ir para a escola com algumas das melhores mentes que a igreja sequer já teve. Alguém disse, “Você se torna como aqueles com quem gasta seu tempo.” Ler os Puritanos, então, seria o melhor uso possível do tempo. Oh, que possamos nos tornar como eles no modo como publicaram a Cristo para que todos o adorem e louvem.
OBS: Texto gentilmente cedido pelo tradutor.

20 maio 2011

Porque amo a Igreja



Por Igor Miguel

Em tempos quando muita gente anda insatisfeito com suas igrejas e comunidades locais, acho que sigo a contramão da tendência. Ando aos amores pela Igreja e por expressões comunitárias de culto e especificamente por minha Igreja Local. Não somente eu, minha esposa anda as voltas pela experiência comunitária também, nada que boa doutrina e leitura não façam.

Vivo dias de suspiro por esta comunidade que chamam Igreja, e não me refiro aqui à Igreja Invisível. Refiro-me a algo bem visível, concreto e humano, refiro-me à Igreja Local, com endereço físico, com estrutura litúrgica formalmente organizada, com pastor, com canções, salmos, pregação, ceia, ofertório e confissão de fé. Dirijo minha gratidão a Deus por àquelas pessoas, com corações fixos em cada música, cada partícula de pão mastigado e o gosto cítrico do vinho da ceia. A comunidade que entoa junto cânticos de gratidão, que não exalta nada além da grandeza do Deus criador, que se revelou redentor em Jesus Cristo.

Sim, desde o livro de James K.A. Smith, Desiring the Kingdom, tenho procurado viver uma espiritualidade na comunidade, por isto, menos individualista, intimista e pietista. Eis o motivo de alguns textos aqui escritos sobre orações, a docilidade da vida comunitária e outras gotas de louvor e gratidão por tudo que tenho aprendido.

Mas, de verdade, o livro de Kevin DeYoung & Ted Kluck, intitulado "Por que amamos a Igreja", me surpreendeu por sua simplicidade e objetividade ao apresentar a possibilidade amarmos a Igreja Local novamente. Em dias em que todo mundo quer dar uma resposta à "crise evangélica", encontramos boas opiniões a respeito, mas também péssimas soluções.

Muitas das "soluções" ou são pós-modernas de mais, como o caso do movimento "Igreja Emergente", ou primitivistas de mais, como o caso do restauracionismo judaizante que insiste no dualismo "Jerusalém x Roma" como a tensão, quando na verdade a crise da Igreja evangélica está em sua rejeição a algo muito mais simples: O EVANGELHO (JESUS CRISTO).

Entre primitivistas, encontramos também soluções radicais, como a galera que quer "desinstitucionalizar" a Igreja, sustentado que estruturas formais de organização eclesiásticas são um problema para a "espiritualidade". Pura abobrinha.

A Igreja se visibiliza na reunião formal do santos, e certamente, onde os santos se reúnem, existirão viúvas, crianças, missões, discipulado, horário de reunião, coletas e por aí vai. Impossível que esta estrutura se mantenha sem uma mínima organização institucional. Entretanto, a instituição serve à Igreja, e não o contrário. Só este detalhe que falha as vezes, e por esta falha, já assumem a filosofia "nós vamos quebrar tudo" e voltar pra Jerusalém, pra Igreja Primitiva... (aff...). Voltemos ao evangelho, Jesus Cristo é mais que suficiente, foi Ele mesmo, a causa primeira e última de todas as reformas, curas e renovações da história da Igreja.

Cito Bob Kauflin, citado por Kevin DeYoung, cantor cristão que assumiu seu orgulho:
"Durante anos, considerei as tradições religiosas como um impedimento à espiritualidade bíblica. Associava orações repetidas, recitação conjunta dos credos, confissão pública do pecado, leitura das Escrituras, calendário litúrgico e ordens de culto a legalismo e servidão. Propus-me a repensar a adoração coletiva a partir do zero. Buscaria apenas as Escrituras e não dependeria de nada que as pessoas tivessem feito nos séculos anteriores. Achei que estava sendo original. Na verdade, estava sendo apenas ignorante -- e orgulhoso." (DeYoung, p. 121).
Muita gente anda decepcionada com a Igreja Local, alguns com motivos, outros por transferência psicológica, ou por um idealismo quase platônico de Igreja. Idealismo refletido em um modelo de "Igreja Apostólica Pura". Pura? A Igreja do I Século era cheia de problemas identitários, tensões apostólicas, incursões heréticas de movimentos pré-gnósticos, judaizante etc. Muitos já resolvidos pelo consenso comunitário da Igreja. Deus nos livre de um retorno a problemas já resolvidos.

No idealismo, esquecemos, que a Igreja continua caminhando, e por isso é uma Igreja no tempo e na história. Temo, que no desejo de uma Igreja Ideal, esquecemos de amar a Igreja Real, aquela que temos agora. Preocupação que compartilho com o grande mártir cristão moderno Dietrich Bonhoeffer que afirmou certa vez:
"Qualquer um que amar mais o sonho da comunidade que a comunidade cristã em si (com todos os seus defeitos) torna-se destruidor desta, ainda que a devoção àquela seja impecável e suas intenções sejam extremamente honestas, sérias e sacrificiais."
A Igreja tem pecadores igual lá fora dela (o mundo), talvez com uma diferença: na Igreja você encontrará pecadores assumidamente pecadores, por isso, dentre eles, vários arrependidos. Arrependidos, que se voltaram para Cristo e seu evangelho, encontrando cura para suas vidas em uma caminhada de progressivo crescimento espiritual rumo a consumação desta magnífica salvação.

Então vou resumir a opera: amo viver em Igreja. Quando muitos querem viver na "Igreja Cristo em Casa", eu quero viver Cristo com outros. Quero estapear meu individualismo me expondo e olhando para os rostos. Quero me arriscar, me lançar aos olhares alheios, as vezes amorosos, as vezes nem tanto.

Mas... é bom, bom de mais segurar o pão da ceia e olhar pra ele e saber que é um pedaço do mesmo pão que minha comunidade segura simultaneamente. Muito bom recitar confissões cristãs milenares junto com minha comunidade ao final do culto, aquelas que afirmam claramente o senhorio, missão universal e divindade de Jesus. É muito bom ouvir um sermão bem preparado por meu pastor. Há! Pastor... bem lembrado.

Pois é, enquanto todo mundo corre de pastor, eu amor ser pastoreado. Dizia ao amigo Aender Borba: descobri que mais do que querer ser um pastor (coisa que não sou), vivi estes 1/3 de minha vida procurando ser bem pastoreado. Ufa! Como tenho aprendido meu pastor.

Então, enquanto muitos correm da Igreja Local, eu corro pra lá. O lugar onde recitamos salmos, cânticos espirituais, bebemos da doutrina apostólica, da suficiência e centralidade de Jesus Cristo. Uma comunidade onde ninguém é exaltado, nem nossa comunidade e nossa visão comunal é exaltada, apenas Jesus. Pois nEle, por Ele para Ele são todas as coisas (Rm 11:36).

Infelizmente, as vezes o que encontramos é compensação afetiva disfarçada de falso vínculo religioso. Falsa comunhão, fruto de uma unidade sentimental desprovida da iluminação de Cristo. Convívio social travestido de espiritualidade. Na verdade, relacionamento recreativo retroalimentado por orgulho e narcisismo. Se Cristo não for o núcleo de nossa vida comunitária, esquece, é clube, mas não é Igreja.

Enfim, a Igreja Invisível, universal, não-institucional, santa e sem mácula, se visibiliza na Igreja Local, com seus dilemas e virtudes (não muito diferente das Igreja exortadas por Cristo em Apocalipse), mas ainda amadas por Cristo, e por isso, dignas de seu amor e severidade. Se Cristo ama a Igreja, certamente também a amo.

16 maio 2011

Se Deus quer que todos os homens se arrependam, então temos um problema. Não, uma heresia.



Por Mizael Reis

Se existe uma questão discutida na teologia reformada cuja longevidade parece-nos não ter fim, é a conciliação que se procura fazer entre a redenção particular e o querer de Deus em desejar que todos os homens se arrependam e sejam salvos. Confesso que, só de escrever tal coisa, me envolve a clara convicção de que tal conciliação não me parece ser possível, posto que, a meu ver se contradizem claramente, ou ainda, faz com que o desejo e as palavras de Deus se contradizem. Sei que tal tema é de arquear as sobrancelhas, e sei que serão muito mais levantadas pela forma com a qual tratarei a questão. Contudo, muitos de nós vivemos com mistérios, os quais nós chamamos de paradoxos. A interpretação tradicional sustenta sua crença resignadamente admitindo humildemente o paradoxo da questão. Eu também admito certo grau de mistério na forma como eu, e alguns poucos teólogos enxergamos o problema proposto. Mas permanecerei crendo neste mistério do que render-me ao outro. Um direito que me assiste. Sei que para os reformados que discordam da crença de que Deus deseja que todos os homens se arrependam, essa visão é amplamente comprometedora, da qual fluem algumas outras inconsistências. Eu, porém, no presente artigo ater-me-ei a questão do inclusivismo.

Creio que se defendermos a crença de que Deus, embora eleja alguns da raça caída para salvação, deseja que todos os homens sem exceção sejam salvos, tal visão, a meu ver, desaguará em duas crenças, das quais uma antes era raramente defendida mas encontra terreno amplo atualmente, e a outra é defendida por um considerável número de reformados. A primeira é o inclusivismo que será tratado nessa primeira postagem, e a segunda é a expiação ilimitada que se opõe a redenção particular que será tratada em um artigo posterior.
Analisemos primeiramente o inclusivismo. Antes, uma sintética definição do inclusivismo se faz necessária. O inclusivismo diz que Deus salva pessoas por meio de Cristo, a sua revelação especial e tais pessoas constituem-se em povos cujas terras o evangelho já alcançou. Porém, existem pessoas, habitantes de terras nas quais o evangelho ainda não foi anunciado, e por essa razão, muitos têm morrido sem que pudessem ouvir a mensagem do evangelho. Deus, em sua infinita misericórdia, a fim de oportunizar a salvação a estes, provê outros meios além da revelação especial para salvá-los. Tais meios constituem-se em outras formas de se “crer em Deus” de uma forma “justa”, sincrética e moralmente conciliatória com o cristianismo. Assim o chamado “problema soteriológico do mal” é resolvido, respondendo a complexa [para alguns] pergunta que se segue: Como Deus salva os não evangelizados? O inclusivista responde: Por outros meios [religiões, natureza, conduta de ética semelhante a cristianismo], pois eles não conhecem a Cristo, e destiná-los ao inferno sem que antes possam ter tido a oportunidade de crer no verdadeiro Deus é no mínimo inconciliatório com a crença num Deus cuja natureza é amor. Por mais que para muitos, tal tema nada possa contribuir ou convergir para a discussão em apreço, analisemos a minha tese. Primeiro relembremos o versículo-chefe dessa discussão:

“Desejaria eu, de qualquer maneira, a morte do ímpio? diz o Senhor DEUS; Não desejo antes que se converta dos seus caminhos, e viva?”[Ezequiel 18.23]

Retoricamente Deus pergunta se porventura ele se compraz na morte do ímpio. Creio que a chave para compreendermos tal versículo está contida no verso 31:

“Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes, e fazei-vos um coração novo e um espírito novo; pois, por que razão morreríeis, ó casa de Israel?” [ v.31]

A quem tal pergunta foi direcionada? A qual povo tal exortação foi estendida? A todos os povos? Evidente que não, mas à Israel somente. Agora reflitamos. Se Deus não deseja que o ímpio pereça, e se por ímpio entendermos todos os ímpios, indistintamente e sem exceção a povoarem o planeta - leve em conta os que povoavam o mundo no tempo dessa mensagem - a enumerar todos os ímpios da terra, e se entendermos assim, e interpretarmos a ocorrência dessa palavra, pela qual Deus demonstrou um desejo semelhante dessa forma, não haveria uma inconsistência em Deus, de querer a salvação de todos os ímpios, mas ao mesmo tempo, expressar tal desejo unicamente à Israel por meio da mensagem que só a eles foi transmitida?  Sabemos que no tempo que antecedeu a plenitude dos tempos, Deus ocultou sua graça a todos os povos, revelando-a seletivamente à Israel, e isso é o que entendemos por abrangência do evangelho do NT, em detrimento da seletividade da eleição no AT, onde nesta a salvação foi claramente restringida por Deus somente ao seu povo, Israel. Por essa razão não me admira o fato de, por exemplo, haver 159 ocorrências da palavra misericórdia somente nos salmos, quase sempre ditas e contidas numa súplica, e todas elas terem sido feitas por lábios israelitas, e não por povos por Deus rejeitados. Algumas passagens ajudam-nos a compreendermos a restritividade de Deus no AT, como o que se segue:

“Que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranha às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo”. [Ef 2.12]

O texto acima é claro, ao ponto de distanciar-nos de quaisquer interpretações que não se alinhem à seguinte conclusão: Deus privou povos no AT de conhecerem o seu nome e por ele serem salvos.

Na verdade, existem passagens no AT, pelas quais Deus revelou-nos o seu desejo futuro de abrigar outros povos além, de Israel, ao grande reduto do evangelho, a ser revelado de igual modo no tempo futuro. À Israel Deus disse:

“O SENHOR não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos;” [DT 7.7]

No Início do capítulo no qual o verso acima está incluído, Deus diz que dará a terras de nações estranhas ao seu povo escolhido. Deus ordena a destruição desses, tal como destruiu os homens em tempos diluvianos, valendo-se da mesma justiça que lhe compete. Em seguida, Deus fala-lhes sobre a eleição com a qual foram contemplados, e cuja qual as outras nações, chamadas por Deus de estranhas, não receberam. O que parece mais coerente dizer sobre o paradeiro dos que Deus não se revelou? Ou seja, qual foi o destino das nações as quais Deus não se propôs se revelar a elas? Salvação? Mas como poderíamos supor tal coisa, posto que, no NT Deus diz ter rejeitado tais nações, como se pode concluir no verso abaixo?

“Que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranha às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo”. [Ef 2.12]

Ou ainda, pelo texto abaixo:

“Vós, que em outro tempo não éreis povo, mas agora sois povo de Deus; que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia” [1 Pe 2.10]

Essa é a magnitude do evangelho em relação o tempo da Lei. Neste, Deus resgatou pra si, um único povo, de uma única língua e raça, a fim de torná-lo sua propriedade, e por ela ser glorificado, acima e diante de outras nações, cada qual com seus respectivos deuses. É certa que Deus pregou a povos estranhos como a Nínive. Porém, isso se constitui, a meu ver, numa exceção de prerrogativa divina, da qual não podemos inferir uma regra. Pois a própria realidade a eximiria, bem como os versículos que a sustentam. Deus não quis salvar todos os povos antes do evangelho. Tal ato de misericórdia estava reservado, por Ele mesmo, para a revelação do evangelho. É fato que no tempo do AT Deus restringiu-se, decretatoriamente, a revelar-se somente a Israel, como se vê, claramente no texto abaixo:

“Porque és povo santo ao SENHOR teu Deus; e o SENHOR te escolheu, de todos os povos que há sobre a face da terra, para lhe seres o seu próprio povo.” [DT 14.2]

Ou pela pena de Amós: 

“De todas as famílias da terra só a vós vos tenho conhecido; portanto eu vos punirei por todas as vossas iniqüidades.” [Am 3.2]

Mesmo podendo recorrer a outros versículos, por meio dos quais tal conclusão se enrobusteceria mais e mais, atenho-me aqui, para fazer uma pergunta: Como Deus pode desejar a salvação de todos os homens, e, por conseguinte, não desejar a morte dos ímpios, e isso sem exceção, se Ele mesmo foi quem se propôs a revelar-se privadamente a Israel, e dele, resgatar o seu povo exclusivo? Como poderíamos conciliar a interpretação mais popular de Ezequiel 18.23 com o fato inconteste de que o próprio Deus não se revelou a todos os povos no antigo testamento, banindo-os a condenação? É como diz Paulo, tais povos [nós, gentios] eram sem Deus no mundo, e ele diz isso aos gentios, esclarecendo-os de que em tempos pregressos ao do evangelho, eles não tiveram a oportunidade que hoje gozam, de serem salvos. Isso porque Deus não quis, e nisso consiste a grandiosidade do tempo evangelho em relação ao tempo da lei. Neste, Deus salvou um povo, de uma única língua e raça. Naquele, Deus pretende salvar muitos homens. Não apenas de um povo, mas de todo povo, de toda raça, tribo e língua. No AT, vemos uma promessa futura, na qual Deus promete aumentar as cercas que delimitam sua provisão misericordiosa às demais nações:

“E farei tremer todas as nações, e virão coisas preciosas de todas as nações, e encherei esta casa de glória, diz o SENHOR dos Exércitos.” [Ag 2.7]

“Todas as nações que fizeste virão e se prostrarão perante a tua face, Senhor, e glorificarão o teu nome.” [Sl 86.9]

Assim, compreendemos terminantemente a áurea promessa do derramamento do Espírito Santo, a ser derramado em todas as nações:

“E há de ser que, depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões.” [JL 2.28]
No evangelho, os salvos não são chamados de uma única nação, senão de todas as nações serão recolhidos e comporão o povo exclusivo de Deus.
Mediante a prova bíblica, tal verdade é irrefutável. As Escrituras são sobejamente claras. Foi Jesus quem disse que, a pregação do evangelho é estendida a todas as nações: “Mas importa que o evangelho seja primeiramente pregado entre todas as nações” [Mc 13.10] Os profetas, porém, em tempos de Israel foram revestidos por tal alçada mundialmente englobadora? Não, não foram. Senão vejamos: A palavra de Jeremias foi essa: “Ouvi a palavra que o SENHOR vos fala a vós, ó casa de Israel.” [Jr 10.1] A Missão de Ezequiel foi de igual modo restritiva à casa de Israel: “E dize ao rebelde, à casa de Israel: Assim diz o Senhor DEUS: Bastem-vos todas as vossas abominações, ó casa de Israel!” [Ez 44.6]. Amós não foi diferente: “Porque assim diz o SENHOR à casa de Israel: Buscai-me, e vivei.” [Am 5.4]. Por essas bases poderemos compreender por qual razão em “tempos passados [Deus] deixou andar todas as nações em seus próprios caminhos” [At 14.2]

Diante do que disse, não há possibilidade de sustentar a crença de que Deus deseja que todos os homens se salvem, visto que ele mesmo não quis que tal coisa acontecesse, a menos, e ai chego ao cerne da proposta do artigo, que se creia que Deus deseja que todos os homens sejam salvos, e para atingir tal propósito, ou ainda justificar tal querer, se creia que Deus provê meios diferentes para a sua salvação, meios que se somarão à mensagem da revelação especial, cuja qual muitos povos a desconhecem. Vejamos um exemplo. Das nações rejeitadas por Deus no AT, encontram-se os egípcios. A tenda da congregação não chegou até eles, eles não possuíam a arca, que simboliza a presença de Deus, e sequer entraram no templo da Glória de Deus, para nele o devotarem culto. Reflita nisso ao lado da leitura do texto chave da questão: 

“Desejaria eu, de qualquer maneira, a morte do ímpio? diz o Senhor DEUS; Não desejo antes que se converta dos seus caminhos, e viva?”[Ezequiel 18.23]

Esse texto compreende tal nação? O querer de Deus envolve-os? Se não, como Deus não deseja que o ímpio egípcio não morra, se a mensagem contida no texto acima, não lhes foi direcionada, senão aos Israelitas? Eles sequer souberam dessa mensagem. Sequer ouviram-na pelo profeta. Eram como diz Paulo “Sem Deus no mundo” [Ef 2.12]

A meu ver, a única solução para essa questão, embora a Escritura não a ratifique [Assim creio, por ser restritivista] é o inclusivismo. A única forma de afirmar que Deus deseja que todos os homens sejam salvos, será conciliar tal coisa com uma crença na qual Deus procure oportunizar a salvação a todos indistintamente e tal crença consiste no Inclusivismo. Isso não é universalismo. O universalismo é determinista, pois diz que Deus inevitavelmente salvará a todos. O inclusivismo, ao contrário, diz que Deus faz a salvação ser potencialmente possível a todos os povos, mesmo aos que estão além dos marcos do seu povo, havendo ainda a possibilidade de condenação. Mas ninguém será condenado, sem que antes não tenha tido a clara oportunidade dada por Deus de se converter. E essa é a única visão com a qual se poderá afirmar categoricamente que Deus não deseja que nenhum ímpio seja condenado ao inferno. Afirmar que Jesus é o único caminho que nos conduz a salvação, ao lado da afirmação de que Deus deseja que todos os homens sejam salvos, inclusive os que morreram sem terem sequer ouvido o nome de Jesus, nas terras onde, muitos ainda morrerão sob tal condição, é expor Deus a uma visão mais turva e nublada da qual se acarretará implicações ainda mais desastrosas. 

Concluindo, creio que a crença de que Deus deseja que todos os homens sem exceção se salvem redundará sem sombra de dúvida no Inclusivismo, a única linha teológica que afirma estar a salvação cabalmente ao alcance de todos os homens no mundo, e que sempre esteve, a  despeito da ausência de Jesus Cristo.

Na próxima postagem tratarei do tema e sua conexão inevitável com a expiação ilimitada.