"A Verdade não precisa de defesa; por si mesma ela se defende. A Verdade precisa ser proclamada!"

09 abril 2012

O arrependimento, na visão Calvinista


Por Ricardo Castro
Sicut scriptum est...

Arrepender-se é chorar os pecados cometidos; e não cometer outros após chorar.

Arrepender-se é gemer pelos males praticados; e não cometer outros, que o farão gemer.

Arrepender-se é uma triste vingança pela qual o pecador castiga em si mesmo o que ele gostaria de não ter cometido.

Arrepender-se é uma dor de coração e um amargor de alma pelas maldades que a pessoa cometeu ou nas quais consentiu.

Arrepender-se é lançar mão de um remédio que extingue o pecado, um dom vindo do céu, um poder admirável, uma graça que sobrepuja a força das leis.

As frases acima são um belo exemplo de declarações de quem nunca, jamais, soube o que é fé (conforme as Escrituras), e, muito menos sabe o que é o verdadeiro arrependimento – o arrependimento segundo os ensinamentos escriturístico (segundo as Sagradas Escrituras).

Pela pregação do evangelho o pecador é apresentado à graça e a remissão dos pecados e, ele, sendo libertado da miserável servidão do pecado e da morte, é transferido para o reino de Deus. Ao receber a graça do evangelho pela fé, não há como ele (o pecador) não voltar atrás em sua vida extraviada, tomar o caminho reto e se dedicar com todo seu empenho a refletir no verdadeiro arrependimento. Assim, o arrependimento é parte integrante da sua fé e, também, gerado por esta.

O arrependimento não precede à fé, mas, sim, procede dela. Não obstante, não há, com essa afirmação, a intenção de dizer que haja algum intervalo de tempo no qual ele, o arrependimento, deixe de ser gerado, mas, sim, que o homem não pode aplicar-se retamente ao arrependimento se não reconhecer que pertence a Deus. Calvino afirma que “ninguém pode concluir que pertence a Deus, a não ser que primeiro tenha reconhecido a sua graça”. Isso, segundo ele, joga por terra a ação comum de exigir do candidato ao batismo alguns dias de arrependimento antes de ser recebido à comunhão da graça do evangelho. Ora, bem sabemos que o cristão deve continuar a prática do exercício do arrependimento, e, este exercício se inicia quando ele, o pecador, recebe de Deus a fé.

Só há verdadeiro arrependimento naquele que crê na Boa Nova – no Evangelho. Há, no entanto, duas espécies de arrependimento: o “Arrependimento Legal” e o “Arrependimento Evangélico”. O “Arrependimento Legal”, segundo Calvino, é aquele pelo qual o pecador, angustiado pelo duro castigo imposto ao seu pecado, e como que partido ou quebrantado pelo terror da ira de Deus, permanece preso a essa perturbação, sem poder se desentravar. Já o “Arrependimento Evangélico”, também segundo Calvino, é aquele pelo qual o pecador, estando lamentavelmente ensimesmado e aflito, não obstante levanta-se e eleva-se, abraçando a Jesus Cristo como o remédio para a sua chaga, o consolo para o terro que o bate, o bom porto par o abrigar em sua miséria (não nos esquecendo de que Deus é o originador da fé que conduz o pecador ao arrependimento).

As Escrituras bem descrevem o arrependimento de Caim, Saul e Judas como arrependimento legal: após conhecerem a gravidade do seu pecado eles temeram a ira de Deus, mas, só pensando na vingança e no juízo de Deus, deixaram-se dominar por este pensamento. Da mesma forma as Escrituras bem descrevem o arrependimento daqueles que, depois de feridos pelo aguilhão do pecado, firmados, porém, na confiança da misericórdia de Deus, voltaram-se a ele: Ezequias, Davi, Pedro, Paulo e, muitos outros. Estes, após chorarem amargamente, não perderam a esperança.

Fé e arrependimento não devem ser confundidos – são distintos, mas, unidos. Não é possível separá-los, mas, é possível distingui-los. Segundo Calvino, o verdadeiro arrependimento não subsiste sem a fé. Assim, embora entretecidos por um laço que não se pode desfazer, melhor será uni-los que confundi-los. O arrependimento abrange a conversão completa, da qual a fé uma das partes componentes.

“A palavra hebraica para significar arrependimento quer dizer conversão; a dos gregos significa mudança de conselho ou propósito e de vontade e, de fato, a realidade não corresponde mal a esses vocábulos. Sim, pois, em suma, arrependimento significa que nos retiramos de nós mesmos e nos convertemos a Deus, e, tendo abandonado a nossa primeira forma de pensar e de querer, assumimos uma nova. Por isso, em minha opinião, podemos defini-los apropriadamente desta maneira.” – Calvino

Devemos saber, e bem saber, que o arrependimento é uma verdadeira conversão da nossa vida - conversão essa para servir a Deus e também para seguir o caminho por ele indicado. Assim, o arrependimento procede de um legítimo temor de Deus, não fingido, e consiste na mortificação da nossa carne e do nosso velho homem, e na vivificação do Espirito. Como conversão de vida entendemos uma mudança, não somente nas obras externas, mas também na alma, de modo que, tendo sido despojado da sua velha natureza, o pecador arrependido passe a produzir frutos dignos da sua renovação. Quanto ao proceder de um legítimo temor de Deus, entendemos que, antes de ser induzido ao arrependimento, é necessário que a consciência seja, primeiro, tocada pelo juízo de Deus. E, quanto à mortificação da carne e a vivificação do Espírito, entendemos que o pecador deve renunciar a si mesmo e abandonar a sua natureza e, que, para isso, é necessária a ação do Espírito de Deus, transformando as almas pecadoras em sua santidade, dirigindo-as de tal modo a novos pensamentos e afetos que se pode dizer que não são as mesmas de antes.

“O arrependimento é uma regeneração espiritual cujo objetivo é que a imagem de Deus, obscurecida e quase apagada em nós, pela transgressão de Adão, seja restaurada.” - Calvino

Sicut scriptum est...
Bibliografia utilizadas na construção deste artigo:
- As Institutas, volume 2 (João Calvino – Editora Cultura Cristã)
(Há, no artigo acima, várias compilações da obra acima, não havendo indicação por aspas ou referências, a todas elas. Minha intenção é incitar o leitor a pesquisar nessa obra e, assim lê-la.)

- Referências bíblicas): Mt 3.2,3; Is 40.3; Gn 4.8-16; 1Sm 15; Mt 27. 3-5; 2Rs 20.1-11; Is 37; Jn 3; 2Sm 24.10,25; 12.13; At 2.37; Lc 22.62, At 20.21; 10.42; Ez 18; Jr 4.1; Is 58; Jr 44; At 17.30,31; 2Co 7.9,10; Sl 34.14; Is 1.16,17; Rm 8.5-8.

Um comentário:

Conselheiro Cristão disse...

Quem se arrepende chora, mas o final dsse choro é a alegria, pois o pecador percebe que Deus perdoou os seus pecados, pois este Deus grande é em perdoar.