
Por Jorge Fernandes Isah
Assistindo ao filme Elmer Gantry1,
"Entre Deus e o Diabo", estrelado por Burt Lancaster e Jean Simmons,
não pude deixar de me impressionar com a estarrecedora descrição e
semelhança com o movimento reavivalista evangélico americano. Há de tudo
um pouco: falsos e eloquentes sermões, e técnicas para atrair, comover e
impactar a platéia. De certa forma, muitos grupos religiosos da
atualidade se baseiam, ou muito bem poderiam ter se baseado, em cenas do
filme. Seria o caso da realidade imitando a ficção.
É
claro que o filme tem um toque caricato, farsesco, como o de uma
sátira, mas pela impressionante semelhança com os movimentos evangélicos
atuais (os neopentecostais e movimentos da fé), não é difícil
reconhecer também a caricaturização das quais muitas igrejas tornaram-se
reféns. Como na vida real, no filme há de tudo um pouco: mercantilismo,
charlatanismo, pragmatismo, exibicionismo, megalômanos a exalar o
fétido odor diabólico.O púlpito é um palco. Os ministradores, atores. E a
igreja, uma assistência patética.
Há apelos, comoção, cartaxe, latidos, gritos, convulsão, e tudo o que de pior o sincretismo tem produzido nas últimas décadas, numa espécie de "orgia" espiritual. Em muitos momentos, tem-se a impressão de estar em um culto na igreja evangélica mais próxima, na desordem sonora, na metalinguagem espaventosa, nas encenações abusivas e licenciosas, buscando resgatar através do sentimentalismo e da banalização um "novo cristianismo", explosivo em sua profusão cênica, porém, burlesco, deformado e inócuo em seu caráter religioso.
Abriu-se
mão do princípio para se valorizar apenas os meios, desde que o fim se
tornasse exequível e imediático. No fim das contas, é um show como outro
qualquer, onde se tem de mobilizar a platéia, criar empatia, fazer
valer cada centavo gasto e ganho, iludi-los com uma espécie de salvação
onde Cristo não está evidente, nem é-se possível encontrá-lo ou
distingui-lo na mensagem, mesmo entre aparente piedade, mesmo que na
ingenuidade.
Elmer
Gantry é um ambulante, uma espécie de caixeiro viajante, que lança a
sua lábia sobre os incautos, vendendo produtos imprestáveis por preços
extorsivos. É um bêbado, mulherengo, mentiroso e fanfarrão, que, da
noite para o dia, se vê alçado ao posto de pastor; de vendedor ambulante
fracassado a pastor itinerante de sucesso.
A interpretação histriônica de B. Lancaster confere um ar de comicidade e zombaria ao seu personagem, capaz de rir-se de si mesmo e da sua imoralidade. É um homem sem escrúpulos, que vê naquela oportunidade a chance de fugir de sua vida miserável. Não há como não vê-lo como um bufão,que em sua tolice consegue enganar uma multidão de tolos ainda maiores do que ele. Burt consegue dar uma áurea de simpatia ao personagem, e, em muitos momentos, é possível acreditar que todo o seu empenho não passou de uma diversão, uma brincadeira ingênua, na qual sequer acreditou. Mas à medida que os "frutos" vão surgindo: conversões em massas (os números são meticulosamente citados), o volume de ofertas, o auxílio de igrejas e organismos religiosos, e os convites para novas "campanhas" em cidades grandes fazem aumentar substancialmente a fama da "tenda evangelística", Gantry começa a acreditar no seu poder de mobilizar milhões de pessoas e dinheiro. Ele crê literalmente na sua força.
A interpretação histriônica de B. Lancaster confere um ar de comicidade e zombaria ao seu personagem, capaz de rir-se de si mesmo e da sua imoralidade. É um homem sem escrúpulos, que vê naquela oportunidade a chance de fugir de sua vida miserável. Não há como não vê-lo como um bufão,que em sua tolice consegue enganar uma multidão de tolos ainda maiores do que ele. Burt consegue dar uma áurea de simpatia ao personagem, e, em muitos momentos, é possível acreditar que todo o seu empenho não passou de uma diversão, uma brincadeira ingênua, na qual sequer acreditou. Mas à medida que os "frutos" vão surgindo: conversões em massas (os números são meticulosamente citados), o volume de ofertas, o auxílio de igrejas e organismos religiosos, e os convites para novas "campanhas" em cidades grandes fazem aumentar substancialmente a fama da "tenda evangelística", Gantry começa a acreditar no seu poder de mobilizar milhões de pessoas e dinheiro. Ele crê literalmente na sua força.
Inicialmente ele é a sombra da irmã Sharon Falconer, uma
profetisa/evangelista errante, sem vínculo denominacional, extremamente
carismática (em todos os sentidos), e que arrebata uma platéia cativa à
sua elegância e suavidade quase angelicais. Jean Simmons (uma atriz
fantástica) tem uma interpretação diametralmente oposta a de Burt L. Ela
é contida, delicada, quase diáfana, como se flutuasse por entre os
cenários, mas alcança um brilhantismo poucas vezes visto em Hollywwod.
Por isso, talvez a dúvida que se tem: se ela acreditava realmente em sua
santidade ou, como Elmer, estava a aproveitar-se da situação, já que a
coisa toda parecia dar certo. Não é assim que os movimentos
arminianos-positivistas acreditam? Se o negócio funciona, é sinal de que
Deus está a dirigi-lo e abençoá-lo, do contrário, por que daria certo?
(At. 5.38-39).
Uma das frases mais emblemáticas é quando Sharon diz ao Sr.Lefferts, o qual se recusava a ajoelhar-se para uma oração (um jornalista ateu que acompanhava a "tenda" enquanto fazia pesquisas para uma futura reportagem sobre o movimento.O auter-ego de Sinclair Lewis): Você pode não acreditar em Deus, mas ele acredita em você! (citação livre, não literal do texto). Demonstrando de que forma o humanismo consegue corromper os valores cristãos, invertendo a ordem ao fazer Deus ter fé no homem, quando somos nós que devemos crer nEle, conforme ordenam as Escrituras.
Uma das frases mais emblemáticas é quando Sharon diz ao Sr.Lefferts, o qual se recusava a ajoelhar-se para uma oração (um jornalista ateu que acompanhava a "tenda" enquanto fazia pesquisas para uma futura reportagem sobre o movimento.O auter-ego de Sinclair Lewis): Você pode não acreditar em Deus, mas ele acredita em você! (citação livre, não literal do texto). Demonstrando de que forma o humanismo consegue corromper os valores cristãos, invertendo a ordem ao fazer Deus ter fé no homem, quando somos nós que devemos crer nEle, conforme ordenam as Escrituras.
O
filme é uma crítica ácida ao evangelicalismo emergente americano (o
livro é de 1926), permeado pela hipocrisia, a desfarçatez e a
teatralidade, capaz de produzir a tolice e o engano ao invés de homens
salvos e servos verdadeiros.
Por ter lido Lewis na adolescência, percebi que a crítica ao
evangelicalismo reavivalista americano à "lá Charles Finney",
subentende-se uma crítica ao capitalismo. Sinclair era um dos mais
ferrenhos combatentes do "american way of life" presente em muitas de
suas obras, por exemplo, Babbit (provavelmente a mais famosa). Ele usa o
Cristianismo como palco para demolir o mercantilismo e a sociedade
hipócrita e imoral obstinadamente servil ao dinheiro de sua época. Como
crítico de costumes, Lewis até que se sai bem, apesar de ser um autor
relegado ao pó do esquecimento, e que não tem nenhum apelo às novas
gerações cada vez mais bestializadas e estúpidas. Não que Lewis seja um
gênio. Não que o seu discurso seja verdadeiro. Na verdade, ele não é,
duplamente. Mas deve ser lido e avaliado como o porta-voz de uma época; e
que pode ser útil para se averiguar também a presente geração. Na
verdade, ele não era um marxista, mas um liberal que rejeitava
veementemente suas raízes tradicionais e campesinas.
Voltando
ao filme, Lefferts, o jornalista, diz em sua matéria de capa do jornal
Zenith sobre a "tenda": O que é uma caravana? Uma igreja? Uma religião?
Ou um circo, onde o espetáculo são as atrações bizarras? (novamente,
citação livre, não literal).
Ainda que saido da boca de um ateu (creio que Lewis o era, apesar da
educação religiosa tradicional), não seriam os questionamentos do autor
um alerta para o momento em que vivemos? Não estamos numa espécie de
"vale-tudo", onde o desprezo a Deus e Sua palavra são tão notórios que
Ele se utiliza da voz dos ímpios para condenar o que estão a fazer com a
igreja? Não estamos tão obliterados, cegados pela vaidade, na crença de
que temos super-poderes e somos super-homens, que um réprobo pode ser
usado para nos alertar? Como diz o ditado: em terra de cego, quem tem um
olho é rei.
Ainda
que o mundo não seja capaz de julgar a igreja, nem o possa fazer, por
que rejeitamos os alertas e persistimos em blasfemar o nome de Cristo
entre os incrédulos? (Rm 2.24).
Porém, ao final, cumprir-se-á o alerta de Cristo: "Toda
a árvore que não dá bom fruto corta-se e lança-se no fogo. Portanto,
pelos seus frutos os conhecereis. Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor!
entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que
está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não
profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e
em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade" (Mt 7.19-23).
Porque o homem prudente escuta as Suas palavras, não o cainhar do lobos.
Porque o homem prudente escuta as Suas palavras, não o cainhar do lobos.
Nota: 1- Elmer Gantry/Entre Deus e o Diabo (título em português)
Diretor: Richard Brooks, EUA, 1960
Elenco: Burt Lancaster (ganhador do Oscar de ator principal),
Jean Simmons, Arthur Kennedy, Dean Jagger, Shirley Jones, Edward
Andrews, Patti Page, John McIntire, Rex Ingram, Hugh Marlowe, Philip
Ober
Roteiro: Richard Brooks
Baseado na novela Elmer Gentry, de Sinclair Lewis (o primeiro escritor americano laureado com o prêmio Nobel, o qual declinou receber)
Música: Andre Previn
Produção: United Artists
Cor:145 min.
Texto publicado originalmente no Kálamos