"A Verdade não precisa de defesa; por si mesma ela se defende. A Verdade precisa ser proclamada!"

31 março 2014

Como ler livros e fugir da desonestidade intelectual





 Por Jorge Fernandes Isah

A edição de que disponho não é a da "É realizações", mas uma antiga, da extinta "Agir", cujo título é "A Arte de Ler", e não a literalização do título em inglês: "How to read a book".

Como não há, no momento, outra edição além da publicada pela "É realizações", coloquei a capa e o link para a editora, a fim de que os interessados comprem-no [até porque as edições antigas somente podem ser adquiridas em sebos, como eu fiz, e, muitas vezes, por um preço absurdo].

A atual edição tem mais de 400 páginas, enquanto a minha dispõe de quase 300. Não houve acréscimo, ao que parece, mas uma redisposição editorial do texto.

Quanto ao livro, é o seguinte: ao começar a leitura, constatei o que já sabia e que vivia tentando não me lembrar: eu não sei ler um livro! Para quem tem um blog de livros, isso é uma realidade dura e trágica. Mas era o que eu percebia a cada frase ou texto que me apresentava incompreensível. É claro que, como há péssimos leitores, também há os péssimos autores. Aqueles que aparentam ser intelectuais, mas não passam de enganadores. Escrevem frases enigmáticas, misteriosas, complexas, que o único intuito de não serem inteligíveis, pois, na verdade, não sabem a mínima do que estão falando, e preferem mesmo enganar. São os "picaretas", que aparentam sofisticação e hermetismo, quando não passam de ignorantes, iletrados e fraudadores. 

Mas há aqueles autores que estão degraus acima da nossa compreensão, não porque eles são desonestos, mas porque nós é que deixamos a honestidade de lado, ao considerarmo-nos capazes de compreender o que escrevem, quando não somos. Nesse caso, a fraude se torna no próprio leitor. Quantas vezes nos deparamos com um texto complexo, e simplesmente o abandonamos, considerando-o chato ou pedante? Sempre temos uma desculpa para a própria ignorância e má-leitura, infelizmente. E a culpa não é do autor, nesse caso; mas a transferimos a ele, indevidamente.

Fato é que, ao iniciar o livro do Adler, percebi-me não um leitor mediano, a quem o autor dirige a sua obra, mas abaixo do mediano. Sempre evitei livros técnicos, um pouco por preguiça, outro tanto por ignorância. E sempre considerei suficiente entender um pouco do livro, mesmo que esse pouco fosse muito pouco mesmo. As vezes, nos contentamos em apreender nada e a considerar o aprendizado como qualquer coisa que vem à mente. Passamos de leitores a reescritores, dizemos aquilo que o autor não disse como se fosse ele dizendo. Em todos esses casos, eu, você, e em quem mais a carapuça servir, agimos desonestamente.

Ainda não cheguei ao ponto em que Adler revelará, por completo, como fazer uma boa leitura, mas estou ansioso[1]. Até mesmo porque quero ler melhor, e, na verdade, abandonar as fileiras do analfabetismo funcional. O que seria bom se, até muitos chamados intelectuais, refletissem e vissem como são maus-leitores, muitos, como eu, no analfabetismo.

Interessante que, ao dizer à minha esposa que eu era um leitor ruim, ela disse: se você é mau-leitor, o que eu sou, então?... Bem, não me consolou em nada, mas me deu a certeza de que estamos num período negro na intelectualidade, e isso tudo reflete-se na sociedade, onde um ex-presidente, semianalfabeto, se gaba de não gostar de ler, e temos cada vez mais leitores preguiçosos, que consideram possível o conhecimento por osmose, aumentando a legião de palpiteiros e "chutadores", aqueles que atiram para todos os lados sem ter alvo algum.

Pelo pouco que li, algo em torno de 60 páginas, "Como ler livros" ou a "A arte de ler", é leitura fundamental. Agora, fica a pergunta: não se sabendo ler, é possível aprender a ler, lendo? [rsrs]... Descubra, por si mesmo. 
 
Notas: 1- Com isso, não estou dizendo que a "A Arte de Ler" é um manual infalível, e que todos passarão a ler conforme as técnicas ali expostas. Não é isso! Mais do que ensinar como fazer, ele nos mostra o que não devemos fazer enquanto bons leitores. A partir daí, pode-se traçar um "roteiro' de como se obter o melhor de uma leitura, pois há várias, não se podendo ler da mesma maneira uma obra de ficção [que está pronta e acabada, nos dando todo o caminho a percorrer] e uma de não-ficção, em que temos de preencher as "lacunas" deixadas pelo autor. É claro que as "dicas" nos guiarão a meditar nos objetivos, métodos e o porquê de se ler determinado livro, o que vale dizer que não há um padrão único ao qual todos devem seguir para "aprender a ler". Porém, há um mínimo a se saber, e, sem ele, não se caminhará muito nesse conhecimento.

21 março 2014

O pecado que Cristo não levou

















Por Jorge Fernandes Isah


Defendi AQUI e AQUI a eternidade da natureza humana de Cristo; e a imutabilidade da natureza humana de Cristo, e do próprio homem, AQUI. Serei excomungado de vez, agora, por voltar ao tema. Antes, definirei alguns pressupostos da ortodoxia cristã quanto ao Redentor, para situar-nos:

1)Cristo é 100% Deus e 100% homem;
2)Cristo é uma única pessoa, não havendo duas mentes nem duas personalidades, mas apenas uma, o Verbo eterno.
3)As duas naturezas de Cristo não se misturam, ainda que se comuniquem.
4)Os atributos de uma natureza não são passados para outra natureza, fazendo com que Cristo se tornasse em um terceiro ser a partir da misturas de suas naturezas.
5)Cristo é eterno em sua divindade, e temporal em sua humanidade.
6)Cristo foi gerado em Maria, virgem, pelo Espírito Santo.
7)Cristo é descendente de Adão, assim como o é de Abraão e Davi.
8)Cristo não tem pecados, jamais pecou.

Posto o que a ortodoxia cristã advoga para o Redentor, pergunto: Sendo o Senhor descendente de Maria, Davi, Abraão e Adão, por que não herdou o pecado, nem participou da corrupção da raça humana? [1]

Alguns dirão que o fato de Maria não ser fecundada por um homem, mas pelo Espírito Santo, fez com que Cristo não recebesse a imputação do pecado original. Contudo, Maria também não é descendente de Adão? Ao que replicarão: o pecado está na semente do homem, não na semente da mulher, como parece indicar Gn 3.15. Em outras palavras, esse argumento afirma que a semente da mulher, isoladamente, não tem o pecado, o qual está presente na semente do homem. Como são necessárias as duas sementes, o óvulo, feminino, e o sêmen, masculino, para se ter o ovo ou zigoto [2], Cristo não herdou o pecado por não ser gerado natural mas sobrenaturalmente. Porém, fica a questão: o fato de Cristo ser gerado pelo Espírito, por si só não o tornaria essencialmente diferente do homem?

Não consigo entender porque Cristo teria de ser Ipsis litteris como homem para que sua obra na cruz fosse eficaz. Ele tinha de ser igual a nós em tudo para ser real? Mas real em qual aspecto? No aspecto imperfeito herdado de Adão? Ou na perfeição existente em Si mesmo? O fato de não ser imperfeito o torna em um homem irreal? Ou a sua humanidade perfeita faz dele o homem perfeito?

O fato de não ter pecado, nem ter a possibilidade de pecar, o torna essencialmente diferente do restante da humanidade. E dizer que, em algum aspecto, Cristo pudesse pecar ou sujeitar-se ao pecado [hipoteticamente falando], implicaria na possibilidade de Deus pecar, o que é absurdo, e se opõe frontalmente à Escritura. Entender os textos que dizem que Ele em tudo foi tentado como nós, como uma possibilidade de pecar, significa que poderia, a qualquer momento, ceder à tentação, e por si só lançaria por terra o princípio de que Cristo é o santo de Deus [Mc 1.24;Lc 4.34]. É como se quiséssemos, meio à forceps, deter uma mínima, irrisória, participação na salvação. Chamar a atenção para nós mesmos, como se algo de bom em nós existisse em Cristo. Como a dizer: "se não houvesse a parcela humana em Cristo, não haveria salvação". De certa forma, esperamos exaltar-nos, ainda que inconscientemente, na salvação que é completamente divina, e procede somente de Deus. É o que diz o profeta: "Do Senhor vem a salvação" [Jn 2.9] Como disse Arthur Pink:

"The humanity of Christ was unique. History supplies no analogy, nor can His humanity be illustrated by anything in nature. It is incomparable, not only to our fallen human nature, but also to unfallen Adam’s. The Lord Jesus was born into circumstances totally different from those in which Adam first found himself, but the sins and griefs of His people were on Him from the first. His humanity was produced neither by natural generation (as is ours), nor by special creation, as was Adam’s. The humanity of Christ was, under the immediate agency of the Holy Spirit, supernaturally "conceived" (Isa. 7:14) of the virgin. It was "prepared" of God (Heb. 10:5); yet "made of a woman" (Gal. 4:4.) [3]

Porém, o pecado de Maria persiste, a menos que se faça como os católicos e se defenda a sua não-pecabilidade. Mas a Bíblia não afirma isso, pelo contrário, diz que todos pecaram, sem distinção [Rm 3.23], e de que apenas Cristo jamais pecou [Hb 4.15]. Então, do ponto de vista bíblico, como seria possível Cristo, sendo homem, não herdar o pecado original?

Há a necessidade de se definir o pecado original, e de que forma, biblicamente, é transmitido. “Pecado original significa o pecado derivado de nossa origem, não é uma expressão bíblica (foi Agostinho quem a cunhou), mas é uma expressão que traz a uma proveitosa focalização a realidade do pecado em nosso sistema espiritual” [4]; ou ainda: "o estado e condição de pecado em que os homens nascem" [5], em outras palavras, o pecado original é algo que não somente nos distingue de Cristo, mas algo que vai muito além, impossibilitando-o de ser igual a nós. Assim, entendo que o pecado não é algo passado de pai para filho, na fusão dos elementos reprodutores do homem e da mulher. Por isso a distinção acima sobre semente não procede como argumento para Cristo não herdar o pecado. Adão, ao cair, representou a raça humana no Éden, de tal forma que todos os homens, sem exceção, caíram juntamente com ele. Todos os homens estavam em Adão [e também as mulheres, claro], o qual foi o cabeça da raça humana, de tal forma que toda a humanidade estava nele, participando do seu pecado, e assumindo a culpa advinda dele. Por isso todos caíram, e morreram juntamente com Adão: “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” [Rm 5.12]. Deus nos considera tão responsáveis por esse pecado quanto Adão, de tal forma que nascemos “mortos em ofensas e pecados” [Ef 2.1], mesmo quando ainda não cometemos efetivamente nenhum delito. Ele está em nosso coração como uma disposição natural, como algo intrínseco à natureza humana, apenas à espera para manifestar-se; algo latente que acontecerá a seu tempo, sem chance de não ocorrer, a menos que não haja tempo [como na morte de bebês prematuros].

A pergunta inicial está a reclamar uma resposta: Por que Cristo não herdou o pecado?

Há quem diga que o fato de Cristo ser Deus, anulou a herança do pecado. Como Deus não pode pecar, sendo santo e perfeito, a humanidade do Redentor tornou-se imune pela impecabilidade divina. Porém... Se as suas duas naturezas não se misturam, como é que a divina “anulou” na humana o pecado federal? Se elas não se misturam, como o pecado original não foi transmitido a Cristo? Há duas hipóteses, ao meu ver:

1) Cristo não herdou sua humanidade de Maria. Desta forma, o Espírito Santo foi quem gerou o homem Cristo, apossando-se apenas da carne, do físico doado por Maria. É o que parece dizer o anjo: “José, filho de Davi, não temas receber a Maria, tua mulher, porque o que nela está gerado é do Espírito Santo” [Mt 1.20]. E a resposta que ela recebeu ao questionar o anjo: “Como se fará isto, visto que não conheço homem algum? E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus” [Lc 1.34-35].

2) Cristo sempre teve a natureza humana, como essência. O que foi gerado em Maria foi o corpo, a parte material do Senhor.

Sendo essa a minha opção predileta, primeiro, definirei o que entendo por essência, conforme o dicionário Michaelis:

Essência: sf (lat essentiaNatureza íntima das coisas; aquilo que faz que uma coisa seja o que é, ou que lhe dá a aparência dominante; aquilo que constitui a natureza de um objeto.

Compreendo que o homem é um ser completo, carne e alma [6]. Porém, entendo que a humanidade está presente na alma, usando o corpo como dispensário ou habitáculo. Desta forma, o pecado age na alma, e é ela que precisa de regeneração. Quando Adão pecou, a morte veio como conseqüência da transgressão da Lei divina, da ordem expressa de Deus: “De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente, morrerás” [Gn 2.17]. Na desobediência do homem, encontramos dois tipos de morte: a física e a espiritual. A física, fez do corpo corruptível, o qual voltará à terra, como está escrito: "No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” [Gn 3.19]. A espiritual, causou a separação do homem de Deus; ele perdeu a comunhão com o Criador, de tal forma que foi necessário reabilitá-lo através do sacrifício de Cristo na cruz, o qual pagou os pecados do seu povo, expiando-o, justificando-o diante de Deus [Hb 2.17]. Por sermos descendentes de Adão, automaticamente fomos representados por ele no Éden, e recebemos a maldição do pecado: as duas mortes.

Cristo, ao receber os pecados do seu povo, por imputação, morreu fisicamente, pois é-lhe impossível morrer espiritualmente, visto ser Deus. Para Cristo, não há morte espiritual, apenas física. Da mesma forma, os eleitos, aqueles que foram ligados eternamente a Deus na temporalidade, pela obra de Cristo, também não morrem mais espiritualmente, mas apenas em sua corporeidade. Porque “estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus” [Ef  2.5-6]. Ora, alguém que estava morto e foi vivificado pode morrer novamente? Especialmente se foi vivificado em Cristo? Se foi ressuscitado nEle? Se está assentado nos lugares celestiais com Ele? O que nos impede de desfrutar completamente desta obra de Deus são exatamente duas coisas: a temporalidade, estarmos no tempo, e o corpo, que precisa cumprir o castigo de morrer em sua corruptibilidade.

Alguém poderá pensar: "mas esse seu argumento não se parece com o gnosticismo dos primórdios da igreja? Quando o corpo era visto como mau?"...

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26 fevereiro 2014

A Morte da Morte

Por Jorge Fernandes Isah
 
a-morte-da-morteComo adepto do existencialismo, vivi três meses de completa rejeição à idéia de Deus. Lá pelos meus dezenove anos, após “desviar-me” da igreja batista à qual era membro desde os dezesseis, vi-me seduzido pelo mundo, pela liberdade do mundo (livre para a devassidão), pela imoralidade, e o prazer carnal que ela trazia. A idéia de Deus que eu ouvira nas pregações, leituras bíblicas, e do testemunho de crentes fiéis não podia conviver com o meu novo estilo de vida, portanto, a primeira coisa a fazer era “matar” Deus, para não ter a consciência afligida, nem ninguém a cobrá-la.

E o que no princípio tornou-se uma festança, esbaldando-me em cada esquina, leviana e dissolutamente, foi dando lugar à dor, ao vazio e a desesperança. A mente, ao insurgir-se contra Deus, somente é capaz de ferir-se... desiludida, confusa, colide-se com o natural, e não é capaz de encontrar alívio em mais nada, apenas na própria dor. A mente flagela-se, dilacera-se, esmaga-se, não se aceita; incapaz de curvar-se, engendra saltos ainda mais profundos, e o que lhe resta é a própria autodestruição. O suicídio torna-se o alívio derradeiro: a suprema escolha ilógica do indivíduo, porque viver é por demais desalentador, é um esforço sobre-humano.
Como não há verdade objetiva nem absoluta, o existencialista sofre, angustia-se, revolve-se na existência frouxa da paixão, que, maquinalmente, o mergulha no poço da incerteza, ou na fuga à nulidade, à completa ignorância de si mesmo, do seu semelhante e do mundo.

Via-me como os personagens dos desenhos Looney Tunes que, invariavelmente, precipitavam-se no abismo ao serem perseguidos ou ao perseguirem alguém. Sequer percebiam o chão fugir-lhes sob os pés, e quando davam por si, estavam em queda-livre, de encontro à realidade, dura como o chão era para o Coiote, e quebravam a cara. A perseguição do Coiote ao ingênuo mas rápido Bip-Bip era irreal. Porém, o existencialismo despreza os outros, ridiculariza-os, ri-se deles enquanto chora convulsivamente diante do espelho... sem esperança... é patético.

Mesmo envolto em trevas, não me foi possível suportar o ateísmo [também os demônios crêem que há um só Deus, e estremecem (Tg 2.19)]. Porém, eu não queria abrir mão da imoralidade, da pretensa liberdade que me levava, única e exclusivamente, ao pecado, e a sugestionar e induzir outros incautos ao pecado [alguns nem tão incautos... outros, apenas a esperar um empurrãozinho]. Então, adeqüei-me ao deísmo, a ideia de que Deus não estava nem aí para a sua criação; como afirmei tolamente inúmeras vezes: “Deus fica no céu, e eu aqui! Ele não me incomoda, eu não mexo com Ele!”. Era o cúmulo da arrogância, da blasfêmia, da rebeldia contra Deus. Era a minha natureza caída opondo-se desavergonhadamente a Ele... Menos de um ano após a minha saída da igreja, eu acreditava em um deus impessoal, não cria no diabo, nem no inferno, e sentia-me confortado em saber que, no fim das contas, esse deus salvaria a todos, não condenaria ninguém, e que haveria um paraíso, mesmo eu sendo o que era, fazendo o que fazia. Mas esse aparente conforto não trouxe paz, porque a verdadeira paz, a paz interior, somente Cristo é capaz de propiciá-la [Jo 14.27]. Pelo contrário, quanto mais eu tentava fugir da idéia da morte, mais era atacado por ela, e as noites só eram possíveis após doses cavalares de álcool. De certa forma, mantinha-me anestesiado à noite, e anestesiava-me durante o dia, na espera da tarde chegar, e poder enfim embriagar-me novamente.

O que ficou claro nesses vinte anos, é que a aparente trégua entre mim e Deus não me trouxe tranquilidade. Ao manter a distância, afastando-me mais e mais d’Ele, sobreveio-me uma dor crônica, infligindo-me tormentos, abrindo feridas que não foram curadas, mesmo com todos os paliativos filosóficos, estéticos e sentimentais administrados. Coube-me buscá-los, aplicá-los, desfrutar de momentâneo alento, e rejeitá-los por sua ineficiência... são quando as frustrações tornam o viver um flagelo, algo insuportável. O tempo passa, os métodos também, e ao olhar-se para si mesmo, vê-se apenas o fracasso. Então, a morte que fustigava, revela-se como a amiga mais próxima, aquela que nos revelará exatamente o que somos, da maneira mais temível, dura e impiedosa: “és pó e em pó te tornarás” [Gn 3.19]. Segue-se a loucura as vezes, a apatia as vezes, a irresponsabilidade, ou a negação outras vezes... como se possível fosse abandonar a vida, apagá-la completamente, como se jamais tivesse existido.

Então, quando tudo parecia perdido, Deus, do qual mantínhamos uma grande distância, encurta-a, aproximando-nos d’Ele. Não há como explicar... Imediatamente, somos içados do fundo do abismo. Instantaneamente, toda a treva se faz luz; toda tormenta se torna em bonança; toda aflição se torna em alegria... uma alegria inconcebível e surpreendente, tão magnífica que nos lança ao chão, e de joelhos, choramos o arrependimento pela rebeldia, pela afronta à santidade de Deus, clamando pelo Seu perdão. Cristo, o justo que morreu pelos injustos, para levar-nos a Deus [1Pe 3.18], é a fonte de toda essa transformação. Num átimo, sabemos o que somos; sabemos quem é Deus, e o que Ele começa a promover em nós pelo poder regenerador do Espírito Santo: antes mortos, agora vivos! Antes, andando segundo o curso deste mundo, em ofensas e pecados, éramos filhos da desobediência [Ef 2.2]; agora, pela misericórdia de Deus, pelo Seu muito amor com que nos amou, deu-nos vida em Cristo nosso Senhor [Ef 2.4-5]. Antes, fazendo a vontade da carne, na imoralidade (porque todo ato que não glorifica a Deus é pecado), éramos filhos da ira; agora, ao recebermos a Cristo, crendo no Seu santo nome, pelo Seu poder, somos feitos filhos de Deus, “os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” [Jo 1.12-13]. É indizível... e resta-nos somente quedar admirados, e render-nos gratos diante da intervenção pródiga que nos libertou dos laços da morte, fruto da graça e misericórdia do nosso Senhor, pois éramos arredios e andávamos dispersos, e Cristo nos reuniu em um só corpo, como filhos de Deus [Jo 11.52].

Então, a nossa mente rebelde, que em toda altivez se levantava contra o conhecimento de Deus, pelo Seu poder, foi levada cativa à obediência de Cristo [2Co 10.5], o qual levou cativo o cativeiro, para que Deus habitasse entre nós [Sl 68.18]. Porque somos novas criaturas, “as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” [2Co 5.17]... Sonho? Delírio?... Não! Mas fé! Não uma fé humana, claudicante, flutuante, como “nuvens levadas pela força do vento, para os quais a escuridão das trevas eternamente se reserva” [2Pe 2.17]. Não. É uma fé viva, sobrenatural, que provém de Deus, sendo Sua doação a nós [Ef 2.8]; pois, “a graça de nosso Senhor superabundou com a fé e amor que há em Jesus Cristo. Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” [1Tm 1.14-45].

A morte já não exerce mais o seu domínio, pois passamos da morte para vida, pela vida que Cristo nos deu na Sua morte.

Fonte: Kálamos

26 dezembro 2013

Uma breve resposta à doutrina arminiana da graça preveniente

Por John Hendryx



O termo “graça preveniente” — uma doutrina distintamente arminiana — se refere a uma graça universal que precede e possibilita as primeiras agitações de uma boa vontade ou inclinação em direção a Deus e ela explica a extensão ou grau para o qual o espírito santo influencia uma pessoa anterior a sua vinda à fé em Cristo. O arminiano, junto com o calvinista, afirma a inabilidade moral humana e o total desamparo do homem natural em questões espirituais e a absoluta necessidade pela sobrenatural graça preveniente se houver qualquer resposta certa ao evangelho. Como os calvinistas, os arminianos concordam que, à parte de um ato da graça da parte de Deus, ninguém voluntariamente viria a Cristo. Este ponto é importante distinguir de modo a não confundir o arminianismo clássico com fineyismo ou semi-pelagianismo, que ambos rejeitam a necessidade da graça preveniente. Então a redenção de Cristo é universal num sentido provisório, mas condicional quanto à sua aplicação a qualquer indivíduo, isto é, aqueles que não resistem à graça oferecida a eles através da cruz e do evangelho. A graça preveniente, de acordo com os arminianos, chama (exteriormente), ilumina e capacita antes da conversão e faz a conversão e a fé possíveis. Enquanto os calvinistas creem que o chamado interior ao eleito é irrevogável e efetivamente traz os pecadores a fé em Cristo, o arminiano, por outro lado entende a graça de Deus como finalmente resistível. Em resumo, eles afirmam que a graça preveniente, que é dada a todos os homens em algum ponto em suas vidas, temporariamente traz o pecador para fora da sua condição de depravação total e o coloca em um estado neutro de livre-arbítrio em que o homem natural pode aceitar ou rejeitar a Cristo.

A graça preveniente definida como se segue pela “ordem de salvação de Wesley”:


“Os seres humanos são totalmente incapazes de responder a Deus sem Deus primeiro capacitá-los a ter fé. Esta capacitação é conhecida como graça preveniente. A graça preveniente não nos salva, mas, em vez disso, vem antes de qualquer coisa que nós fazemos, nos atraindo para Deus, nos fazendo QUERER ir a Deus, e nos capacitando a ter fé em Deus. A graça preveniente é universal, tanto quantos todos os homens a recebem, independente deles terem ouvido falar de Jesus. Ela é manifestada no desejo estável da maioria dos humanos conhecer a Deus.”

Portanto, em resposta a afirmação ortodoxa de que a geração de fé dos pecadores por si mesma implica mérito, o arminiano frequentemente responderá afirmando que a vontade humana, socorrida pela graça preveniente, é livre, mesmo em aceitar a graça do perdão; embora esta aceitação não seja mais meritória do que a aceitação de um mendigo de uma fortuna oferecida, ainda é aceita livremente, e com o poder de rejeição, nenhuma é menos graça por isso. Em outras palavras, cada pecador determina por si mesmo, se será salvo ou não, e assim determina sua própria eleição baseado em se ele responde ou não positivamente ao evangelho oferecido a ele por Deus enquanto sob à influência da graça preveniente. O arminiano argumenta que qualquer outra coisa seria injustiça de Deus.


Resposta:



Enquanto o exemplo do mendigo pode soar razoável à primeira vista, eu proponho olhar mais atentamente nestes conceitos. Quais são as semelhanças e diferenças da teologia arminiana com a ortodoxia sobre o conceito de graça salvadora?

Similaridades arminianas com a teologia reformada:



(1) Todos os homens precisam ser salvos da ira de Deus através da obra expiatória de Cristo.

(2) Ambos reformados e arminianos creem que, sem a graça de Deus o homem é totalmente incapaz de responder ao evangelho. Ambas as posições estão em total acordo.

As diferenças arminianas com a teologia reformada está em seu entendimento do significado da graça:

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Fonte: Monergism

Tradução: Francisco Alison Silva Aquino

Divulgação: Bereianos

14 dezembro 2013

Walter Williams: "A maior contribuição para o bem-estar da Humanidade é a liberdade pessoal"

Walter Williams dá um show de simplicidade e lucidez ao falar de economia, mercado, liberdade e intervencionismo; apesar da claudicância do entrevistador e dos lugares-comuns de suas perguntas.



03 dezembro 2013

Como ser um refúgio para os seus filhos



por John Piper

"No temor do SENHOR, há firme confiança, e ele será um refúgio para seus filhos"[Provérbios 14:26]
 
Se o Papai estiver amedrontado, para onde se voltarão os pequeninos? Papais deveriam ser seguros. Eles deveriam saber o que fazer, como resolver problemas, consertar as coisas e, sobretudo, proteger seus filhos do mal. Mas o que ocorre se uma criança vê o medo na face de seu Papai? E se o Papai estiver tão assustado quanto a criança e não souber o que fazer? Neste caso, a criança fica totalmente perturbada e se apavora. Ela sente que o único lugar firme, bom e confiável de refúgio não é mais seguro.
Mas se o Papai é confiante, a criança tem um refúgio. Se o Papai não está entrando em pânico, mas está calmo e firme, todos os muros podem vir abaixo, todas as ondas podem quebrar, todas as serpentes podem sibilar e os leões, rugir; mas os braços de seu Papai ainda serão um lugar seguro. O Papai é um refúgio, contanto que seja um Papai confiante.
É por isto que Provérbios 14:26 diz que "ele será um refúgio para seus filhos", se o Papai possuir uma "firme confiança." A confiança do Papai é o refúgio de seus filhos. Pais, a batalha para ser confiante não é apenas sobre nós, mas sobre a segurança de nossos filhos. É sobre o senso de segurança e felicidade deles. É sobre eles crescerem aflitos ou firmes na fé. Até que as crianças possam conhecer a Deus de uma forma profundamente pessoal, nós somos a imagem e a personificação de Deus em suas vidas. Se formos confiantes, confiáveis e seguros para eles, eles serão muito mais inclinados a apegar-se a Deus como seu refúgio quando, mais tarde, as tempestades lhes sobrevierem.
Então, como nós devemos obter esta "firme confiança"? Afinal, nós também somos pequeninos, somos vasos de barro, fracos, quebrantados, lutando contra dúvidas e ansiedades. Será que a solução é fazer nossa melhor encenação e esconder o que somos verdadeiramente? Isto nos levará às úlceras, no melhor dos casos, e, no pior, ao duplo erro de desonrar a Deus e rejeitar nossos adolescentes. Esta não é a resposta.
Provérbios 14:26 nos dá outra resposta: "No temor do SENHOR, há firme confiança". Isto é bastante estranho. Diz que a solução para o temor é o temor. A solução para a timidez é o temor. A solução para a incerteza é o temor. A solução para as dúvidas é o temor. Como pode ser isto?
Parte da resposta é que o "temor do Senhor" significa ter medo de desonrar ao Senhor; o que significa ter medo de duvidar do Senhor. Que significa ter medo de temer qualquer coisa que o Senhor tenha prometido te ajudar a superar. Em outras palavras, o temor do Senhor é o grande destruidor de temores.
Se Deus diz, "Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou o teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo," (Isaías 41:10), então, coisa temível é se preocupar com o problema no qual ele disse que irá te ajudar. Temer o problema quando ele diz, "Não temas, eu te ajudo" é um voto de desconfiança contra a palavra de Deus, e isto é uma grande ofensa a Deus. E o temor ao Senhor, ao contrário, faz qualquer um estremecer ante tal ofensa a Deus.
Se o Senhor diz, "de maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei," então você pode dizer confiantemente "O Senhor é o meu auxílio, não temerei; que me poderá fazer o homem?" (Hebreus 13:5-6). Se o Senhor te diz isso, então não confiar na presença e auxílio prometidos pelo Senhor é uma espécie de orgulho. Isto coloca o nosso parecer do problema acima do parecer de Deus. É por isto que lemos as maravilhosas palavras do Senhor em Isaías 51:12: "Eu, eu sou aquele que vos consola; quem, pois, és tu, para que temas o homem, que é mortal, ou o filho do homem, que não passa de erva?". Quem é você para temer os homens, quando Deus prometeu ajudá-lo? Assim, temer o homem é orgulho. E o orgulho é o extremo oposto do temor de Deus.
Então, sim, o Provérbio é verdadeiro e nos é de grande ajuda. Temam a Deus, pais. Temam a Deus. Temam desonrá-lo. Temam duvidar dele. Temam colocar a sua avaliação do problema acima da dele. Ele diz que pode ajudar. Ele é mais inteligente. Ele é mais forte. Ele é mais generoso. Confie nele. Tema não confiar nele.
Por quê? Ele trabalha para aquele que nele espera (Isaías 64:4). Ele resolverá o problema. Ele socorrerá a família. Ele cuidará dos pequeninos. Ele satisfará as suas necessidades. Tema não crer nisso. E, então, seus filhos terão um refúgio. Eles terão um Pai que "tem firme confiança" - não em si mesmo, mas nas promessas de Deus, nas quais ele estremece de não confiar.
Aprendendo a temer ao Senhor para o bem dos meus filhos,
Pastor John.

26 novembro 2013

Vai trabalhar, vagabundo.

 

Por Alexandre Borges

“Knock-out game” é um perigoso passatempo que está se espalhando rapidamente entre jovens das periferias americanas e que consiste em chegar de surpresa numa pessoa que caminha na rua e dar um soco tão forte que ela desmaie, caia apagada no chão. Em pelo menos três estados americanos, há registro de mortes causadas pelo tal jogo.

A polícia diz que até agora os agressores são em geral negros e as vítimas, brancas. Muitos dos alvos são judeus, o que levanta questões adicionais sobre a história de antissemitismo disseminado em comunidades negras nos EUA por ativistas como Louis Farrakhan há décadas. Judeus ortodoxos já estão sendo aconselhados a tomar precauções extras de segurança. Alguns jovens chamam o jogo de “Caçada ao Urso Polar” porque as vítimas preferenciais são brancas.

Há quem relacione o “knock-out game” ao produto de entretenimento mais lucrativo da história, o recém-lançado videogame Grand Theft Auto V, já que esse tipo de agressão é comum no jogo, mas é claro que é muito mais do que isso e reduzir a discussão ao GTA é fugir da raiz do problema. O “knock-out game” é um problema que, se você ignora, pode um dia se transformar literalmente num soco na cara.

A imprensa, para não variar, chama seus “especialistas” para culpar tudo que possa ser relacionado com distribuição de renda ou com uma demonstração de “macheza”, como se fosse natural aos homens sair agredindo qualquer pessoa aleatoriamente nas ruas. A covardia dos ataques, como a que atingiu uma mulher de 78 anos outro dia, é tudo menos demonstração de coragem ou força, é exatamente o contrário.

O que chama atenção também, neste caso, é o silêncio dos ativistas de sempre e do presidente Barack Obama, tão ávidos para enxergar racismo na morte de Trayvon Martin, tese desmontada pela justiça, mas que não se mostraram interessados até agora pelo “knock-out game” e suas vítimas. O silêncio deve durar até que haja uma morte do lado dos agressores, já que, evidentemente, um dia algum americano branco usará uma arma legal para se defender e a esquerda americana terá um novo Trayvon Martin para faturar politicamente em cima.

Outra característica do “knock-out game” é que os jovens não roubam depois que as vítimas caem no chão apagadas, eles apenas saem rindo, saltitando e comemorando cada ataque – o que também desmonta a tese de que estão perturbados, fora do juízo perfeito pela “opressão” da sociedade racista, quando para eles é claramente um jogo.

Há um fenômeno social muito mais sério e grave acontecendo e que, com raras exceções, não é dada a devida atenção: o número de homens adultos que estão fora da força de trabalho, muitos morando com os pais, e que simplesmente desistiram de buscar emprego ou entrar no mercado. Alguns vivem de bicos, outros dormem de dia e passam a noite jogando videogames, outros fazem serviços temporários apenas para juntar dinheiro extra para as drogas e algum lazer, mas há um grave e perverso componente no comportamento desses homens que não formam famílias, não criam filhos, não buscam realização profissional, nada além de prazer e diversão que o cheque da assistência social do estado ao menos em parte garante todo mês.

Nos EUA, segundo dados do próprio governo, 92 milhões de adultos, um em cada três, não estão trabalhando ou desistiram de procurar emprego. É o nível percentual de adultos trabalhando mais baixo desde 1978, quando outro radical de esquerda, Jimmy Carter, ocupava a Casa Branca. O número de empregos criados no país atualmente não é suficiente nem para dar conta do crescimento populacional, quanto mais incorporar desempregados ao mercado de trabalho. O número de americanos recebendo algum tipo de assistência do governo recentemente rompeu a barreira de 100 milhões.

Sem querer entrar numa discussão estereotipada ou superficial sobre o papel dos homens no século XXI, é preciso refletir sobre o que o jornalista econômico Charles Payne quis dizer com a idéia de que “o welfare state está criando o eunuco moderno, castrado na alma por ter perdido seu papel como formador de família, de tomador de riscos e de líder”. Esses jovens que batem em avós distraídas nas ruas e depois saem rindo não tem qualquer idéia do que até bem pouco tempo se entendia por ser um homem.

O welfare state dispensa a necessidade da família tradicional por motivações puramente ideológicas e está usando dinheiro público para isso. Onde se tinha historicamente dois adultos somando esforços para conseguir pagar o orçamento doméstico e educar os filhos, agora entra o estado substituindo um deles. Para quem acha que isso é consequência de crises recentes e não causa, quando o movimento progressista chegou ao poder nos EUA, há mais de um século, o presidente Woodrow Wilson já dizia que cada cidadão deveria “se casar” com o estado.

Ano passado, o caso de Angel Adams, 38 anos, moradora de Tampa, na Flórida, mãe de 15 crianças de três pais diferentes, ficou famoso nos EUA quando seus filhos foram encontrados em condições insalubres e ela, ao ser entrevistada, disse  “alguém tem que ser responsável pelas minhas crianças”. Ela recebeu do governo casa mobiliada, eletrodomésticos, além de comida e da ajuda dos vizinhos e, mesmo assim, seus filhos continuam mal cuidados enquanto ela acha que é tudo culpa dos outros, incluindo do governo, menos dela. Em 2013, nasceu o décimo sexto filho de Angel Adams, chamada por alguns analistas de “welfare mom”, já que ela simboliza de maneira dramática a idéia de que você não é responsável nem pelos filhos que coloca no mundo.

Enquanto Angel Adams tem novos filhos, o campeonato brasileiro de futebol foi vencido esse ano, com folga e por antecipação, pelo Cruzeiro Esporte Clube de Belo Horizonte. Um detalhe que passou despercebido por parte da imprensa: o Cruzeiro é o time com mais jogadores casados que disputou o título. Durante o ano, nenhuma orgia registrada, nenhum hotel quebrado, nenhum flagra com “modelo e manequim” fazendo barraco em casa noturna. Coincidência?

Para Payne, é preciso analisar as consequências de se ter milhões de adultos saudáveis, pagos pelo governo para não trabalhar e não cuidar de eventuais filhos nascidos em relações fortuitas, que passam o dia sentados na porta de casa ou parados nas esquinas esperando o tempo passar. Um dado perturbador que Payne também cita: há cinquenta anos, o problema de saúde que liderava as aposentadorias por invalidez nos EUA era “doença cardíaca” e hoje é “dor nas costas”. Payne afirma que hoje basta um jovem saudável e forte dizer ao governo que está com dor nas costas para passar a viver de mesada de programas assistenciais do governo.

O Brasil também conhece o fenômeno, ao qual deu o nome de geração “nem nem” (nem trabalha, nem estuda). Nos últimos dez anos, o número de brasileiros de 17 a 22 anos que nem estudam e nem trabalham passou de 23,9% para 26,6% segundo o IBGE. E o que eles fazem o dia inteiro para preencher o tempo é um problema social que o welfare state só agrava.

Na Suécia, uma espécie de paraíso ficcional criado pela esquerda, os estupros saíram do controle. O país-símbolo do welfare state e do politicamente correto, segundo alguns levantamentos, está se tornando a capital mundial dos estupros, rivalizando em números apenas com a África do Sul. Se considerarmos o IDH do país e os programas assistenciais mais perdulários que se tem notícia, a comparação levanta questões morais e sociológicas que evidentemente não interessa à esquerda discutir.  Na Suécia, até pré-adolescentes são vítimas comuns de estupros de jovens cada vez mais acomodados com os gordos cheques governamentais e sem qualquer motivação para buscar um emprego formal.

Os números de estupros registrados na Suécia continuam crescendo e um terço deles têm como vítimas mulheres abaixo dos 15 anos de idade (por favor não me venham a conversa de que há um excesso de registros feitos por ex-namoradas enciumadas, como alguns especularam quando esses números apareceram, as discussões metodológicas não mudam o fato de que os números são altíssimos e com viés de alta).

Recentemente, a imprensa mundial fez festa com o fato de que a Suécia estaria fechando presídios por falta de presos, mas o que os jornais não parecem interessados em mostrar é que prender menos não significa menos crimes, especialmente num país mergulhado numa espiral psicótica de teorias sociais esquerdistas em que o crime não pode mais ser chamado de crime. Agora você entende porque quando uma vítima nutre afeição e passa a defender o agressor chamamos de “Síndrome de Estocolmo”, numa referência direta a um sequestro ocorrido na capital sueca em 1973.

É importante que se entenda que nem todo país com alto índice de desemprego é vítima de “knockout games” ou estupros em série. É preciso também que o trabalho seja demonizado, é necessário que se crie via universidades, cultura pop e imprensa a idéia marxista de que a atividade remunerada na economia de  mercado é algo perverso, opressor, que a inserção na força de trabalho é uma espécie de escravidão dos dias de hoje. É preciso também um ambiente hedonista e niilista que leve à busca desenfreada do prazer inconsequente, de preferência subsidiado pelo governo, o que para quem está numa idade de hormônios à flor da pele é um convite quase irresistível.

Em “Vai Trabalhar, Vagabundo”, Chico Buarque resume a idéia da esquerda sobre o trabalho numa sociedade de livre mercado: “Prepara o teu documento / Carimba o teu coração / Não perde nem um momento / Perde a razão / Pode esquecer a mulata / Pode esquecer o bilhar / Pode apertar a gravata / Vai te enforcar / Vai te entregar / Vai te estragar / Vai trabalhar.” O trabalho é, na visão de um ícone da esquerda brasileira, uma derrota para o sistema e a morte do prazer. Em 2013, o filme “Vai Trabalhar, Vagabundo”, com Hugo Carvana no papel principal, faz quarenta anos e hoje somos liderados na política, na cultura e das universidades, por pessoas que foram educadas na juventude com essas idéias. O resultado está aí.

Há poucas semanas, Glenn Beck disse que a ansiedade que se vê nos jovens hoje é porque exigimos pouco deles, eles não são desafiados, não são testados, estamos sempre mimando, negligenciando e perdoando a nova geração. Beck disse “dê um pé na bunda do seu filho” e a imprensa tirou a frase do contexto de propósito para criar uma narrativa de que ele estava incitando a violência infantil, com a desonestidade intelectual de sempre. Qualquer pessoa que conheça o pronunciamento original de Beck sabe perfeitamente o que ele quis dizer.

Em resumo: jovem que trabalha ou que quer trabalhar, que pensa em formar uma família, que sonha em vencer profissionalmente, não soca idosas por trás apenas para preencher o tempo livre e remunerado pelo governo. Como disse Ronald Reagan, o melhor programa social que existe é o trabalho.


21 setembro 2013

Humilhai-vos!

 
Por Jorge Fernandes Isah

Tenho meditado e escrito sobre a necessidade da separação entre luz e trevas. Ela ocorrerá a despeito da nossa disposição em tentar conciliá-las. Novamente, fui confrontado pela Palavra de Deus; a bendita palavra revelada pelo Senhor, dada-nos para que, por meio dela e da ação do Espírito Santo, sejamos santificados, e cada dia mais semelhantes a Cristo. 

Ao final, esse é o principal e, porque não, único objetivo dos crentes nesta vida: ser como é o Senhor. Não por algum mérito que haja em nós, nem por algum esforço nosso, mas unicamente pelo poder e a graça de Deus de nos transformar de miseráveis pecadores em santos redimidos por Seu Filho Amado.
O verso ao qual me referi está em Tiago 4.9: "Senti as vossas misérias, e lamentai e chorai; converta-se o vosso riso em pranto, e o vosso gozo em tristeza".

O impacto ao lê-lo foi o de cair e rolar escada abaixo vinte andares até o fosso; foi o de pular do avião sem pára-quedas; foi como se mil floretes perfurassem-me ao mesmo tempo; senti-me tão miserável em toda a minha pecaminosidade que os olhos marejaram, e lágrimas rolaram pelo rosto. A reação foi a de ter os ossos quebrados, esmagados, então, curvei-me, quedei-me contrito, em silêncio, diante da santidade divina, e da minha iniquidade.

Foi quando lembrei-me de Davi: "Porque eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim. Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mal à tua vista... Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe" (Sl 51.3-5).

Foi quando lembrei-me de Paulo: "Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço... Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?" (Rm 7.18-19;24).

Estendido por toda a Escritura, a leitura do verso colocou-me no devido lugar: de inimigo de Deus; porque a inclinação da carne é morte, e inimizade contra Ele; não podendo agradá-lO, pois não está sujeito à Sua lei, nem, em verdade, o pode ser (Rm 8.6-8). A amizade do mundo é inimizade contra Deus, e quem "quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus" (Tg 4.4).

Como disse outras vezes, não há tons cinzas na Escritura. Ela é preta e branca. Não há como subir no muro e tentar contemporizá-la, nem mesmo ficar alheio a ela. A verdade, mais cedo ou mais tarde, estará diante de nós; se em Cristo, nesta vida, será para salvação; se no Dia do Senhor, quando julgará a humanidade, na vida eterna, será para a condenação de todo aquele que não crê no Filho como a verdade. Ali não haverá chance de reconciliação. A oportunidade é agora, o dia se chama Hoje, "para que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado" (Hb 3.13).

As relações escusas que temos com o mundo e o pecado são as nossas misérias. Ainda que ríamos da manhã à noite; ainda que gozemos todas as benesses que o mundo nos proporciona; ainda que finjamos ser o que não somos, usando o nome de Cristo para a dissolução, para pecar livremente como sinal de blasfêmia; ainda que a nossa loucura nos leve a acreditar em uma eternidade isenta de punição, um mundo em que o deus complacente, criado a nossa imagem e semelhança, perdoará todas as nossas iniquidades sem que haja contrição, como se ele estivesse obrigado, forçado a fazê-lo, sujeitado ao poderio humano; ainda que vivamos um delírio contínuo e continuado, gastando energia, recursos e tempo em nossos constantes deleites; ainda que o sonho nos mantenha entorpecidos, e o medo de acordar nos faça supor que o pesadelo pode ser adiado indefinidamente, contudo, virá inexorável; ainda que se acredite na salvação sem regeneração; tudo isso é motivo de lamento e choro, o qual nos colocará frente a frente com o Deus santo, e toda a nossa imundícia ser-nos-á exibida. Se ao contrário, gastar-nos ainda mais em nossos deleites, o lamento e o choro serão eternos, no fogo inextinguível do inferno. É melhor chorar e lamentar agora, enquanto há tempo, enquanto o dia do Juízo ainda não chegou.

Bem-aventurado quem tem o seu pecado revelado por Deus, se arrepende, e humilha-se diante do Senhor, pois, agindo assim, Ele o exaltará (Tg 4.10). É algo que venho meditando e escrevendo há tempos: o princípio da santidade é a obediência. E obediência significa sujeição, rebaixar-nos diante de Deus. Muitos dirão: mas isso é indigno! Não se deve rebaixar, pois a vontade de Deus é nos exaltar. Essa visão é o resultado do autonomismo. O homem quer ser exaltado sem ser rebaixado, sem ser preciso descair em seu orgulho. Mas não é o que o Senhor nos diz: "Porquanto qualquer que a si mesmo se exaltar será humilhado, e aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado" (Lc 14.11); e ainda: "Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte" (1Pe 5.6).

A desobediência, e mais do que ela, a insistência em manter-se rebelde e em oposição a Deus, revelando a arrogância do homem, somente trar-lhe-á uma única consequência: "Deus resiste aos soberbos". Em contrapartida, Ele "dá graça aos humildes" (Tg 4.6). Aos que querem e acreditam possível servir a Deus e agradá-lO sem sujeitar-se, sem obedecê-lO, sem conformar-se à Sua vontade, alerto: não se engane, nem se deixe enganar, "se alguém cuida ser alguma coisa, não sendo nada, engana-se a si mesmo" (Gl 6.3) e, "não erreis: Deus não se deixa escarnecer", e tudo o que o homem plantar, também colherá (Gl 6.7).

Quase tão imediatamente quanto constatar minha condição iníqua, Deus revelou-Se, colocando-me no lugar em que quis dispor-me: o de amigo, e filho adotivo em Cristo. A tristeza e o choro anteriores do pecador se converteram no gozo e alegria do salvo. Pela graça e misericórdia divina, pelo amor com que amou, compreendi toda a obra de redenção, de transformação, a qual Cristo fez e fazia em minha vida.

Foi quando lembrei-me de Davi: "Purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e ficarei mais branco do que a neve. Faze-me ouvir júbilo e alegria, para que gozem os ossos que tu quebraste... Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto" (Sl 51.7-8;10).
Foi quando lembrei-me de Paulo: "Agora, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito" (Rm 8.1).

Foi quando lembrei-me de Cristo: "Pai justo, o mundo não te conheceu; mas eu te conheci, e estes conheceram que tu me enviaste a mim. E eu lhes fiz conhecer o teu nome, e lho farei conhecer mais, para que o amor com que me tens amado esteja neles, e eu neles esteja" (Jo 17.25-26).

Ainda que eu pudesse chorar todas as lágrimas do mundo, nada pode-se comparar com o júbilo e, sobretudo, a gratidão a Deus por ter-me amado tanto, sem que houvesse qualquer coisa em mim digna do Seu amor. Se havia alguma dúvida quanto ao entender o que é a graça divina, ela se dissipou completamente. Foi-me possível entender que toda a vida tem de estar em constante reverência a Ele, e a obediência é o melhor sinal de reverência. Obedecê-lO significa não conformar-se com o pecado, mas odiá-lo com todas as forças; obedecê-lO significa servi-lO, e não servir ao pecado; obedecê-lO significa mortificar os nossos membros da fornicação, impureza, afeição desordenada, da vil concupiscência, e da avareza, que é idolatria; "pelas quais coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência... mas agora, despojai-vos também de tudo... e vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou", porque Cristo é tudo, e em todos nós (Cl 3.5-6; 8; 10-11).

Por fim, lembrei-me de Pedro: "Se alguém falar, fale segundo as palavras de Deus; se alguém administrar, administre segundo o poder que Deus dá; para que em tudo Deus seja glorificado por Jesus Cristo, a quem pertence a glória e poder para todo o sempre" (1Pe 4.11).

Amém!