"A Verdade não precisa de defesa; por si mesma ela se defende. A Verdade precisa ser proclamada!"

20 outubro 2010

Quae Scripturae? Divinitus inspirata est!

Por Esli Soares *
1 - Introdução ao Texto
          Para os cristãos, todas as argumentações são – ou deveriam ser – feitas apoiadas em um princípio: Existe um único Deus, Senhor, Criador e Mantenedor de tudo e de todos (At 17;28) que se dá a conhecer, se revelando e revelando a sua vontade (Hb 1;1 a 3). Essa revelação é a Bíblia, e é através dela (Jo 1;1 e 14) que hoje Ele comunica sua boa, perfeita e agradável vontade.

          A Bíblia não é um apanhado folclórico do oriente proximal, nem um amontoado de histórias fantásticas de cunho moralista, ou mesmo apenas um registro histórico de acontecimentos reais. Ela é a Palavra de Deus para o povo de Deus (Lc 8;21). Nela estão todas as respostas, orientações e mandamentos claros para a vida dos filhos de Deus (Mt 4;4). Se Deus é verdadeiro, e a Bíblia é a sua Palavra, nada deve ser mais importante que conhecer profundamente esse texto sagrado (Mc 12;24). Ou seja, a única pretensão de um verdadeiro servo de Deus é conhecer essa Revelação, meditar nela e obedecê-la (Dt 6;6 a 25), isso é verdadeiramente viver a fé, isso é realmente crer!

          Como crer é também pensar, deve ser – e é – possível explicar[1] a fé Bíblica[2], mas para tanto é preciso abordar questões relacionadas ao próprio texto disponível atualmente[3]. Ou seja, antes  de abordar as doutrinas, instruções, exemplos, avisos e recomendações da Bíblia, o foco deve ser a própria Bíblia: sua formação, seu caráter e singularidade, a certeza da preservação, a vida de seus ‘autores’, o contexto sócio-cultural em que foi escrita, os leitores originais e etc. afinal, ela é o pressuposto inegociável: Sola Scripturae.

2 - O Texto Revelador
          Em 2 Tm 3;16 a 17, o apóstolo Paulo escrevendo a Timóteo, afirma: “Toda escritura é... útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para educar na justiça”, ou seja a Bíblia serve para dar a capacidade de se tornar maduro na fé, afinal é a Bíblia que conta as coisas de Deus, ler a Bíblia é a garantia de conhecer todas as coisas que Deus tem para falar (Dt 4;1 – Pr 1;7 – Jo 7;16 – Rm 15,4). A Bíblia também e útil para a repreensão, ela serve para advertir sobre o que é certo ou errado. (1 Co 5 e 6 – Ef 5; 3 a 14 – Gl 5;19 a 21 – Ap 2;20). Da mesma forma, ela é útil para a correção, mesmo que alguém esteja vivendo de alguma forma errada, a Bíblia pode ajudar a mudar do caminho errado para o certo (1 Jo 1;5 a 2,1 – Tg 1;5). Por fim, mas não menos importante, as Sagradas Escrituras educam na justiça – fortalecendo e preparando o cristão a viver de acordo com a santidade de Deus (1Pe 1;13 a 16). E, mais, tudo isso com propósito de habilitar o eleito para viver já aqui, nessa presente era, a vida de Deus (Rm 13;11 a 14), além de comunicar a certeza do futuro em glória (Ap 21;1 a 7).

          Tangenciando toda essa aplicação prática, moral, ética – e, por que não cívica? – não destituída de espiritualidade e transcendentalismo, o valor do Vox Dei reside no impressionante fato do Eterno (Emissor) se revelar especialmente[4] através dela (Canal), e não por ter sido ditada ou mecanicamente escrita por Ele, ou porque 100% das passagens tenha sido registradas por pessoas especialmente separadas (santas e preparadas) para esse fim, ou ainda porque tais arautos sabiam que estavam produzindo (ou reproduzindo) manualmente (i.é. transcrevendo) o texto sagrado, e nem mesmo porque os manuscritos originais – as laudas divinas – estão magicamente preservados[5].

          Isso fica claro nas palavras do apóstolo Paulo. Para ele o valor pragmático – útil, descrito anteriormente – abstraído das passagens bíblicas[6], tem seu valor no fato desses conselhos serem inspirados por Deus. Ou seja, Deus é o Autor dessas palavras, Ele é o Editor do texto sagrado, assim o texto é REVELADO aos homens por Deus – ou ainda – o texto é revelador de Deus aos homens. E isso precede em importância qualquer característica associável a Bíblia. Até a santidade atribuída a Bíblia vem do Editor (DEUS) e não dos autores (escritores humanos), nem mesmo do material em si (falando com objeto religioso).

          Essa revelação primeiro foi dada, e posteriormente retransmitida, de forma oral (Hb1;1)  –  o  que  é  assombrosamente impressionante, haja  vista  que  Deus  não só  dotou  o  humano  (receptor)  da  singular capacidade  de  compreendê-lO,  como também  de  transmitir  (emissor)  esse  conhecimento  a outros (receptor).  É dessa transmissão oral (canal) que Ele gerou a transmissão escrita – sendo outra característica surpreende da ação divina em ser cognoscível e compreensível através de rabiscos, tinta e papel: signos criados por homens; ação tão magnífica quanto abrir o mar vermelho, ou seja, a rigor, a Revelação, o fato (continuo) de Deus, o Criador, se revelar (agora) nas páginas da Bíblia, é sobrenatural.

3 - O Texto Autoritário
          Deus ao colocar no cânon, o Início (Gênesis), revela-se como o poderoso Deus que escolhe, institui e preserva um povo para si, o povo de Israel[7]. No relato da própria criação, Deus estabelece, do nada, tudo o que há (Gn 1;1). Toda a criação, todas as coisas que existem, existiram ou existirão, foram planejadas e projetadas por Deus ali naquele instante[8] chamado eternidade. Todas as implicações, conseqüências, desdobramentos, foram antevistos, perscrutados, analisados, compreendido e solucionados.  Deus, antes do start do κoσμου, conheceu, predestinou, providenciou e uniu em Si mesmo, todas as coisas, acontecimentos e possibilidades, começo, meio e fim (cap. III, A Bíblia e o Futuro, Antony Hoekma, Cap. I, cânones de Dort, I Co 2;7).

          Esse Deus passa a por ordem no caos (Gn 1, Sl 74) em proporções universais. O Grande Criador revelado nos dois primeiros capítulos de Gênesis, demonstra sua organização e controle soberano, atuante e não meramente potencial. Ele criou o homem (Adão) segundo a sua imagem e semelhança e o colocou no jardim do Éden para cultivá-lo e guardá-lo, orientando-o sobre como deveria proceder ali (Gn 2, 4 a 25) expondo as conseqüências de violar essas condições.
          
          Assim temos o estabelecimento de um pacto, entre o IAHWE e Adão; entre Deus e o homem. Nessa relação contratual é descrita as cláusulas do pacto (obediência e vida; desobediência e morte) e suas observações na vida. É exatamente a cláusula desse contrato que trata das punições (desobediência e morte) que obriga o ser humano a uma vida distante de Deus, longe do paraíso, expulso da presença divina, ou seja, o Pacto vigora!

4 - O Texto Coerente

          Ao considerar o bojo do N.T. de acordo com uma eclesiologia posmoderna, poderia-se afirmar uma descontinuidade desse texto (isso é, V.T. despresado frente ao N.T.), e disso validar as mais diversas heresias
[9]. Por outro lado, uma super valorização do V.T em detrimento ao N.T. nos levará a validar outro amontoado de heresias[10][11].


          Entretanto as revelações do N.T. sobre o pacto no V.T. numa visão equilibrada apontarão não só para a manutenção proposital do Pacto da (e na) Velha Aliança – como comenta o Rev. Ronald Hanko no artigo  "O Pacto e a Lei", o qual transcrevo abaixo – mas também a clara progressão no entendimento desse Pacto.

– Segue o artigo que originalmente pode ser visto aqui:
 A característica singular do pacto com Israel foi, sem dúvida, a entrega da lei no Monte Sinai. Qual é a relação entre a lei e o pacto? Fundamental para um entendimento dessa relação é Gálatas 3:17-21. Essa passagem mostra, primeiro, que o pacto com Abraão, quatrocentos anos antes da entrega da lei, é o pacto que foi “confirmado em Cristo,” isto é, o pacto eterno de Deus; e, segundo, que a entrega da lei não poderia anular o pacto (v. 17). De fato, a lei não é nem mesmo contra o pacto (v. 21).
 Êxodo 24:7 vai mais adiante e chama a lei de “o livro do pacto,” o livro no qual Deus fez conhecido seu pacto com o seu povo. Se o pacto ao qual ela pertencia é o pacto que foi confirmado em Cristo — o mesmo pacto ao qual pertencemos — então a lei ainda é o livro do pacto, embora muita coisa tenha sido adicionada ao livro desde então. De acordo com Gálatas 3:19, essa lei escrita foi adicionada ao pacto por causa das transgressões, até que Cristo viesse. Isso significa que a lei, ao revelar o pecado, mostra a nossa necessidade de Cristo. Ela foi o “aio para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé” (v. 24) nele. Romanos 10:4 diz a mesma coisa. A passagem não diz que Cristo é o fim da lei no sentido dele abolir a lei, mas que ele é o fim da lei por ser seu objetivo e propósito. A lei foi dada com Cristo como o seu objetivo, e ela realiza seu propósito quando, ao revelar o pecado, mostra ao verdadeiro Israel sua necessidade de Cristo e da justificação pela fé nele.
 Que a lei continua a ter essa função Paulo mostra claramente em Romanos 7:7: “Eu não teria conhecido o pecado, senão por intermédio da lei.” Gálatas 3 também prova isso quando diz que a lei não era o aio apenas dos judeus, mas nosso também (vv. 23-24). Não temos dificuldade, portanto, em dizer que a lei era e é parte do pacto. Ela era certamente parte do pacto no Antigo Testamento, como Gálatas 3:19 nos lembra. Que isso ainda pertence ao pacto é claro a partir do fato que a mesma lei continua a ser para nós um aio (tutor) que conduz a Cristo. O que mudou foi a nossa relação para com a lei como povo do pacto, mas isso é um assunto totalmente diferente do assunto de Gálatas 4:1-7. Isso não é o mesmo que negar que existiam “rudimentos do mundo” amarrados à lei e elementos que eram puramente cerimoniais (Cl. 2:20-23). Esses cessaram, mas mesmo no Antigo Testamento eram parte do pacto de Deus por apontar para Cristo e funcionar como um “aio” para trazer Israel a Cristo. O ponto é que existe apenas um pacto, um pacto que não está em conflito com a lei, um pacto de graça em Cristo ao qual todos os verdadeiros israelitas pertencem. A lei de Deus não era, não é, e nunca será contra (paralela[12]) o pacto de Deus.

A leitura, mesmo simples, da carta aos Hebreus esclarecerá muito das ligações entre as cerimônias e rituais do V.T. na perspectivas neotestamentária. Ou seja, há uma continuação e uma complementação da antiga revelação do Pacto sem, entretanto, apresentar um rumo que não estivesse previsto nele. O correto é afirmar que tudo da revelação de Deus se encerra com o N.T. (cap. I, CFW). As revelações escriturísticas da era cristã são de fato e de direito o cumprimento do V.T. Assim não só o Pacto, estabelecido com Adão, é mantido, como, também, tem-se claramente a consumação do mesmo, ficando patente a potência e a extensão desse Pacto[13] (Rm 16:25,26, Ef 1;9,14, e 3;3,6).

          – Para ficar num exemplo "simples" de como os aspectos da Lei de Deus[14] devem ser revisto sob o prisma de Cristo [15]. Paulo afirma que a participação na sinagoga ou numa festa como a do Pentecoste (At 20;16), na da mais era do que uma atitude de se fazer “tudo para com todos” (I Co 9;19). Para ele as festas e cerimônias tinham perdido seu valor espiritual por causa do superior oficio de Cristo, mas não eram necessariamente proibidas. Já para a igreja gentílica, até o sábado era uma parte inseparável do jugo ritualístico judaico (Gl 5;1, Cl 2;14). Por isso os primeiros irmãos consideraram “dias, meses, estações e anos” (Gl 4;10) como sendo elementos não essenciais à adoração a Deus. E por se entenderam livres em Cristo dos princípios elementares (Gl 4;9), não observavam o calendário religioso judaico.

          Essa concepção é originada dos próprios ensinos e práticas de Jesus, que é o único “descanso” autêntico atodos os cansados e sobrecarregados, bastando-lhes que aceitassem o seu jugo (Mt 11;28-30). Assim o domingo não deve ser considerado como sendo o Sabbath (dos judeus),  apenas como um atraso de vinte quatro horas – sob pena de incorrer no mesmo erro dos judaizantes[16] – antes porém, deve-se considerá-lo como “o novo sábado”, numa expectativa da vitória definitiva de Cristo, da qual sua ressurreição, que aconteceu no primeiro dia da semana, é um prenúncio, prenúncio do Último Dia que é verdadeiramente o descanso prometido por Deus. 
         Na progressão histórica desse pensamento, em meados do segundo século, Justino, o Mártir, tinha identificado o viver cristão com o sábado perpétuo que consiste de abster-se do pecado e não do trabalho. lrineu encarava o sábado como um símbolo do futuro reino de Deus, no qual aqueles que serviram a Deus “num estado de descanso, participariam da mesa de Deus”. Tertuliano declarou: “Nós não temos nada a ver com as festividades judaicas”. Orígenes disse do cristão perfeito: “Todos os seus dias são do Senhor e ele está sempre observando o dia do Senhor”.
   
5 - O Texto Atual
         A exatidão e validade desse texto têm sido demonstradas pela precisão com que descrevem todas as coisas, principalmente em se tratando do coração do homem. Inúmeras profecias foram cumpridas e tantas outras caminham inexoráveis. Entretanto a Bíblia, não é só descritiva. Ela não conta apenas os grandes feitos divinos na história de Israel (A.T.), ou os relatos da passagem de um homem bom nas terras palestinas há cerca de 2000 anos (N.T.). Ela também não foi escrita apenas como um documento do poder público – códigos civil, penal, religioso e etc. (A.T.) e nem é só o diário da igreja primitiva (N.T.).  A Bíblia é o Texto Revelado Autoritário para o séc. XXI. Sendo a Palavra de Deus (imutável), no A.T. e o N.T, também contém a Palavra (imutável) de Deus para hoje, para nós, para nossa realidade e nível de entendimento e cultura. 
         
         A Escritura é a Revelação (afirmação) divina multidimencional (1Pe 4;10). Em todas as passagens há sobreposição de informações. O Canon é como um caleidoscópio[17], a cada movimento e mudança de perspectiva, uma face diferente da Única Verdade se revela. E embora ela não esteja presa em padrões antigos (como se o pensamento de outrora fosse o que dá base para o que é bíblico, e não o contrário – em si tratando da coisa boa e santa, ou seja, o padrão era a Bíblia = Palavra de Deus) ela não precisa ser revista e nem completada e nem precisa ser “politicamente correta” ou censurada – me refiro a cristandade como agente censurador – “afinal esse livro é machista e violento, nossas crianças não precisão aprender isso”.

        Ora se o que de Deus se pode conhecer (Sl 19), naturalmente demonstra o juízo e a condenação indistintamente a todos os homens (Rm 1;20), e a Revelação especial é ainda mais terrível quanto ao anúncio distintivo da reprovação do homem (Rm 3;10) diante do padrão elevado de Deus (Lv 11;44). Outras afirmações bíblicas são igualmente válidas para a nossa sociedade global, principalmente no campo moral e ético.

          É importante relembrar que não foi a Igreja e os 
concílios ecumênicos que deram autoridade a Sagrada Escritura –  o que poderia dar base para uma nova contextualização bíblica sobre o auspício de que ela é fruto da Igreja Medieval – antes esses reconheceram a autoridade de tais escritos e se apoiaram no testemunho tanto interno quanto externo da autoria dos mesmos para reconhecer para si (e sobre si), a Bíblia como única regra de fé e prática – proposta recuperada pelos reformadores dos séc. XVI. Assim verdades como todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus (Rm3;23) ou não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer (Rm 3;10 a 12), são especialmente atuais.
         
6 - O Texto Apresentado
          A Lei de Deus vigora! O Pacto é para todos e sua validade é para o séc.XXI.  Jesus esclarece como deve ser a aplicação atual dessa lei e como esse pacto deveria ser encarado: Quando perguntado sobre qual era o maior mandamento, ele, afirma que a grande lei que os homens devem seguir é amar a Deus de todo o coração. Esse amor a Deus deve ser entendido como a acepção verdadeira da adoração exigida e – claro – possibilitada por Deus (Ex 20;6). Cristo afirma que essa é a Lei de Deus, o mandamento máximo divino, a razão pela qual os seres humanos existem, o propósito da criação. Amar a Deus é o objetivo que o Criador estabeleceu para o ser humano, é um decreto imutável do Senhor (item V, cap. III CFW, livro I, cap. I, IRC).

          O termo traduzido por amar é
 ἀγαπήσεις que foi utilizado na LXX para traduzir o verbo Ahavtá[18] do hebraico (cerca de 200 ocorrências). Esse termo em hebraico foi usado para descrever o sentimento de Abraão pelo seu filho Isaque (Gn 22;2), o amor de Jacó por Raquel, pelo qual trabalhou sete anos (Gn 29;18), e a amizade profunda de Jonatas e Davi (I Sm 20;17). O verbo traz a idéia do amor incondicional, altruísmo. A maior lei de Deus manda que o homem ame mais a Deus do que a si mesmo, que considere o Senhor mais importante e digno de atenção e reverência, o principal, o primeiro, a quem todas as coisas devem ser oferecidas primeiramente, em detrimento de si mesmo, a despeito inclusive de faltar para si.

          Entretanto Jesus acrescenta que esse mandamento se traduz, também, numa atitude de amor para com o próximo. Ele cita Lv 19;18, afirmando que amar ao próximo como a si mesmo é o segundo  grande mandamento, semelhante (aquilo que se parece ou é próximo de...) ao primeiro. Os mesmos termos (V.T. em hebraico e no N.T.) são usados no segundo mandamento de Jesus. A segunda maior lei de Deus é tratar o outro como a si, da mesma maneira que alguém si ama deve amar ao outro, buscar o bem do próximo com o mesmo cuidado e determinação dispensados na busca do bem para si mesmo. A idéia não é “
meu direito acaba aonde começa o do outro”, forma passiva, mas “meu dever é o direito do outro”, forma ativa. E mais, essa lei tem uma importância maior. Amar (ἀγαπῶν) ao próximo é mais importante que todos os outros mandamentos, ficando diretamente abaixo de amar (ἀγαπῶν) a Deus. Não se pode – não aqui – entender essa passagem de forma simplista. Jesus não está simplesmente resumindo os 10 mandamentos em 2, como sugerida pela explicação clássica – boa e correta, porém curta – de que “amar a Deus...” é o resumo dos 4 primeiros mandamentos e “amar ao próximo...” dos 6 seguintes.

          Cristo afirma que estes dois mandamentos são os que dão base a tudo que a Lei (Torah) regulamenta, e por causa deles os Profetas trouxeram julgamento e condenação às nações (Is 1;2). O amor (ἀγαπῶν) a Deus é o principio da obediência (Jo 14;23). Entretanto, para Cristo, amar (ἀγαπῶν) ao próximo é tão diretamente entrelaçado com amar (ἀγαπῶν) a Deus que ele vê a necessidade de responder ao questionamento com afirmações sobre um segundo mandamento semelhante ao primeiro.

7 - O Texto Aplicado
Foi assim que a igreja compreendeu o Texto Revelador Autoritário Atual, mas do que especular sobre os detalhes técnicos dessas passagens, a Igreja simplesmente passou a viver com essa verdade, impondo-se o Amor e a Graça ante a frieza da aplicação legalista da Lei.

O entendimento dessa realidade está espalhado nas cartas paulinas, bem como nas cartas gerais. João coloca essa relação de amar ao próximo como sinal do amor a Deus (I Jo 2;10, 3;10, 4;7,8,20,21), Tiago afirma que uma fé em Deus sem obras é morta. Para eles amar a Deus implicava diretamente em amar aos semelhantes. Paulo passa a mostrar o mais excelente dos dons, o amor (ἀγάπην), e é evidente que esse amor, poeticamente apresentado, não é para com Deus. O amor ali apresentado é como deve ser a expressão do nosso amor (ἀγάπην) para com o próximo. O amor com que Deus nos amou é o padrão para amarmos uns aos outros. O apóstolo ainda acrescenta que todos os atos feitos sem amor (ἀγάπην) são inválidos. Ele não afirma que os atos foram ruins, ou que deveriam ser evitados. Ele afirma que um culto ou  mesmo a religiosidade destituída de amor (ἀγάπην) não tem valor nenhum por que está destituída da essência de Deus. Se os atos mais profundos de devoção não contemplarem, em amor, ao próximo, serão como um barulho, um som destituído de sentido e de beleza, que rapidamente torna-se insuportável (Ap 3;16).

O post "11 de Setembro? Eu, você e mundo!", serve de mais explanação desse ponto.

O resumo da obra: ou observações importantes sobre esse artigo.

a - O primeiro ponto explica a relação que o cristão deve ter com o estudo da Bíblia, ou seja, "Procure apresentar-se a Deus aprovado, como obreiro que não tem do que se envergonhar, que maneja corretamente a palavra da verdade"(2Tm2;15); basicamente o segundo ponto é "Há muito tempo Deus falou muitas vezes e de várias maneiras aos nossos antepassados por meio dos profetas, mas nestes últimos dias falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e por meio de quem fez o universo" (Hb 1;1);  o terceiro ponto é "Digo-lhes a verdade: Enquanto existirem céus e terra, de forma alguma desaparecerá da Lei a menor letra ou o menor traço, até que tudo se cumpra"(Mt 5;18); o quarto concorda com  o fato que " Deus não é Deus de desordem, mas de paz. Como em todas as congregações dos santos," (1Co 14;33). O quinto pode ser resumido em "...todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus..." (Rm3;23); O sexto em "Tomai sobre vós o meu jugo e de mim porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. " (Mt 11;29); O sétimo basea-se em "Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que nós as praticássemos." (Ef 2;10).

b - Essas 7 observações sobre a Bíblia, não são definitivas ou exaustivas, são apenas 7 proposições minimamente necessárias para um melhor entendimento acerca da Palavra de Deus.

c - Devem ser acrescentadas a esse post as seguintes características da Bíblia: Iluminação; Exatidão; Unidade; Inerrância; Infabilida.

d - A preservação é um das características mais importantes da Bíblia e será tratada num artigo seguinte.

e - A bibliografia foi omitida por algumas razões: muitas partes desse meu texto compartilham de outros textos meus, assim multiplicando-se as referências; o artigo não terminou, pelo menos mais duas partes devem se seguir a este post – mas não se animem, vão demorar! E mais em breve postarei um artigo com a bibliografia do blog e nele serão postos todas as referencias indiretas que sempre uso.


[1]  É importante frisar que explicar a fé através dos resultados obtido nas análises da Sagrada Escritura, não é uma ação movida (em mim) por um interesse de deixar presunções religiosas e suas afirmações eventualmente flácidas e se apoiar nas “certeza” cientificas. O zelo e a honestidade para com a Verdade Relatada, se desdobra em uma demonstração da racionalidade e lógica da (minha) Fé Cristã (1 Pe 3;15): Credo ut intelligam.
  Ciência e Fé, ou fé na ciência e fé na religião são presunções ou pressuposições, com diferentes axiomas, mas igualmente válidas, uma vez que não são, necessariamente, contraditórias. Ambas se sustentam pela confiança depositada em alguma autoridade. No caso na Ciência a autoridade é dada pelo empirismo, na religião a autoridade vem de um ente superior.

[2] Isso é, fé na mensagem da Bíblia e nas verdades dela abstraídas: fé nas histórias, nos conceitos e nos valores nela contidos. É claro que essa fé, valida as eventuais informações histórico-geográfica, psicológicas, antropológicas, filosóficas, cientificas e etc., mas a Bíblia não é prioritariamente um livro técnico, por isso temos que tomar cuidado para não fazer “afirmações bíblicas” em cima de coisas que a Bíblia – necessariamente – não diz.

[3] Tanto a questão das traduções, como a questão ainda mais fundamental da critica textual.

[4] Deus ao criar todas as coisas deixou claramente muito de si nelas, por isso na natureza se distingue algumas de Suas características (Rm 1;17), ao ponto que todos, naturalmente, podem reconhecer a existência de um Criador (ou, no minimo, o fato criativo). A própria natureza chama para si essa qualidade ou missão, e ao observá-la é possível, facilmente, perceber que uma mente inteligente, uma personalidade muito poderosa, atuou na formação de todas as coisas, conferindo-lhe a beleza, funcionalidade, distinção, criatividade, dentre outras coisas. O próprio caráter distintivo do ser humano, frente ao de outros animais, é, também prova disso. Mesmo a mente de uma criança que  já é dotada da habilidade em questionar  suas origens, juntamente com o próprio fenômeno antropológico da religião, provam incontestavelmente que o universo (tudo o que há, inclusive nós mesmos) gritam “existe um Deus”. Embora ninguém possa alegar que nunca viu uma indicação da existência de Deus, essas características divinas expostas na natureza, não são suficientes para ninguém saber qual a vontade de Deus e principalmente ter o conhecimento sobre a Salvação proposta por esse Deus. 

[5] A preservação do texto sagrado será abordada posteriormente. 

[6] No texto citado acima 2Tm 3;16, “Escritura” se refere ao que hoje chamamos de A.T.

[7] Para não abrir – eventualmente – espaço para um entendimento equivocado acerca desse povo, sugiro a leitura do artigo Israelense, Israelita, Judeus e Povo de Deus.

[8] Esse instante que chamo eternidade precede a fundação do mundo. Seria o conselho da criação juntamente com o conselho da redenção que acontecem antes da criação descrita em Gênesis 1. 

[9] Em ordem crescente de desvio do certo (ortodoxia) temos: o pentecostalismo, arminianismo, 
dispensacionalismo, gnosticismo cristão, a salvação universal, o liberalismo teológico e o Teísmo Aberto.

[10] Em grau muito menor (me refiro a comprometimento de alguns erros em relação a uma vida espiritualmente positiva) que a idéia contrária (ver nota 9) e com uma variação difícil de precisar no que tange ao deslocamento do certo (ortodoxia) temos (sem criterização de importância e grau de equívoco): legalismo, pentecostalismo (usos e costumes), sabatismo, adventismo, bem como os judaizantes, teonomistas, teocratas, recostrucionistas cristãos, neo-puritanos e etc.

[11] Em uma classe distinta entra a ICAR e a repetição alegórica semanal do trabalho sacerdotal (missa).

[12] Complemento entre parêntese acrescido por mim.

[13] Que é, na verdade, o plano da salvação planejado na eternidade antes da fundação do mundo.

[14] Lembre-se que a guarda do sábado é o 4º mandamento.

[15] Para sintetizar a idéia leia "O Sermão do Monte (Mt  5)", Cristo não anula ou suspende nada da Lei, ele expõe o âmago dela, para exemplificar, leia Jo 8;1 a 11 e Lc  7; 11 a 15. 
[16] A ressurreição de Cristo no primeiro dia da semana (hoje chamado de domingo) não deslocou o sabbath para o dia seguinte, ocorrem diversos fatores ‘aleatórios’ - inclusive - a freqüência de alguns do “Caminho” nas sinagogas. Outro fator foi a perseguição pelos judeus e, posteriormente, pelos romanos a esse culto ‘herege’. A celebração cristã aos domingos é um fato histórico e não um mandamento.
[17] É um erro pensar que esse dispositivo mostra novas coisas, na verdade o que acontece é um interação entre a luz externa e os objetos dentro do aparelho. Não há introdução de novas peças, o que ocorre é apenas uma observação diferente causada por direfentes reflexos. Para mim uma perfeita alegoria dos processos de iluminação dadas pelo E.S. ao fiel que corajosamente se entrega a leitura da Bíblia.    

[18] Transliteração de  אהבת

* Nota: Texto gentilmente cedido pelo autor e disponível originariamente em "A Cruz, On Line"

05 outubro 2010

Soberania de Deus e algumas visões a seu respeito




Por Mizael Reis *

Existe um hino que nós cristãos, há tempos cantamos: 
“Nosso Deus é soberano. Ele reina, antes da fundação do mundo.”
Como já abordei em um artigo anterior (Leia-o aqui), dizer por dizer que Deus é Soberano, sem relevar as implicações que carregam tal afirmação é fácil. Submeter tudo que acontece no mundo a esta soberania, é que se constituirá numa difícil tarefa as mentes incrédulas e oscilantes.
Pois bem, pensando nisso, senti o desejo de escrever, basicamente, sobre três cosmovisões [1] que dizem crer nessa Soberania (uma dessas três a redefiniu completamente ,a seu bel prazer), de Deus. São elas: O Calvinismo, o Arminianismo e o Teísmo Aberto. Como conclusão ao texto, transcrevi alguns textos bíblicos que julgo serem decisivos para que tal soberania seja de uma vez por todas bem interpretada e compreendida, submetendo tais concepções à supremacia da escritura, o que nos levará a rejeição de duas dessas cosmovisões. Alinhar tais versículos com uma, e uma apenas, dessas três cosmovisões, será tarefa de cada leitor.
Os que repudiam os termos, em razão de incriminá-los como rótulos, talvez não gostem muito desse texto, pelo fato deste contê-los. Mas sempre vale lembrar que neutralidade não existe. Por exemplo, se você leitor, crê no livre arbítrio, então de alguma forma, mesmo que não queira, você reflete em sua crença o pelagianismo, o semi-pelagianismo e o arminianismo de séculos passados. Se alguém diz ser Pentecostal, ou Assembleiano, ou Batista,  etc. já estará se valendo de termos, incorrendo na própria hipocrisia de se impor em uma utópica neutralidade.

O Teísmo aberto.


O teísmo aberto, pensamento esse com raízes ateístas e de origem adventista [2] proclama a liberdade humana, em detrimento da Liberdade de Deus. Essa concepção, divorciada do Deus das Escrituras, enobrece a escolha humana, e destitui a Deus de seu próprio poder, pois na ânsia de deificar o homem, venda os olhos de Deus para que  este não veja e saiba do futuro que se avizinha e se descortina diante dos seus olhos.
Na visão do teísmo aberto, Deus é Soberano, mas não da forma como fora tradicionalmente concebido. Ele é soberano porque sabe o que está acontecendo em seu mundo, embora não saiba o que possa acontecer em tal mundo, isso porque a história do mundo é escrita sinergícamente pela aliança entre Deus e homem, sem a qual o mundo perde-se como um barco à deriva. Ambos não sabem nada acerca do futuro, pelo menos não exaustivamente (O que para mim, é a mesma coisa, dita de forma camuflada, a fim de criar os seus adeptos sem assombrá-los). Diante disso, e motivados pelo desejo de um final feliz, com uma história feliz, Deus (Creator) convida ao homem, fabricante de sua própria história (homo-faber) que faça parte, com o peso de decisão majoritária, da construção dessa história, ainda informe. Porém, lhe é tão facultada essa decisão, ou seja, depende tanto do homem tal escolha de contribuir ou não em tal construção que ele bem pode “soberanamente rejeitá-la”, o que se leva a concluir, no campo dessa concepção, que se o mundo ainda vive em desgraça, é porque o homem ainda não se dispôs em se revestir de sua responsabilidade para mudá-lo. Assim, em decorrência dessa escolha soberana do homem de não ajudar na parte que lhe compete, a tão esperada construção desejada por Deus é sublevada pelo não-engajamento do homem na parte do plano que lhe diz respeito. Como prova dessa desobediência, o mundo lamentavelmente tornou-se naquilo que ele é hoje, mas não é o que é porque Deus quis que assim fosse, pois de fato ele não esperava tal desfecho, posto que ele não sabia, nem da escolha futura do homem de não desejar se tornar co-autor de uma bela história, como não sabia do que lhe esperava no desenrolar da história em função da indiferença e do homem em produzi-la.
Dessa forma tudo o que acontece no mundo é culpa do homem, no sentido de que este, não quisera se munir de sua responsabilidade no plano, cuja concretização, sempre utópica (porque o mundo nunca melhora nos moldes que o teísmo aberto espera que melhore, posto que o homem é mau e pecador), dependia plenamente de sua cumplicidade a favor da aliança. No teísmo aberto, o homem cria o inédito tanto para ele quanto para Deus. Porém, esse inédito só se materializa na medida em que homem se prontifica em iniciá-lo. Assim, longe de crer num determinismo, onde Deus determina todos os acontecimentos, os proponentes do teísmo aberto, apregoam um declarado indeterminismo, onde nada está decidido, sendo o futuro tanto para Deus quanto para o homem, um amanhã ainda não acontecido.
Dessa forma, Deus não só é fraco, como não rege a história. Ai, nessa forma de ver as coisas, nós seres humanos, estamos à mercê de qualquer desgraça mundial, posto que nem o Deus o qual servirmos, poderia fazer alguma coisa por nós, sem nós, o que leva-nos a concluir que todas as promessas de Deus, hipoteticamente falando, deveriam merecer todo nosso descrédito e desconfiança, pois se ele não sabe nada sobre o futuro, então também não saberá sob quais circunstâncias nos brindará o futuro no momento em que o deus do teísmo aberto, nos prometeu o cumprimento de determinadas promessas.
Assim, no reduto misterioso de sua eternidade, sob a ansiedade que o consome, esse deus, está à espera, complacentemente, de algum ser humano que queira protagonizar a bela história ainda não acontecida, o que ele não sabe existir, mas que acredita que possa ainda indeterminadamente, mas não sem esperança, vir a acontecer. Esse Deus não é do Deus das Escrituras.

O Arminianismo

Os Arminianos e os de vertentes correlatas, afirmam não haver contradição alguma em dizer que Deus é Soberano, ao mesmo tempo e conceito de que o homem tem livre arbítrio.
Eles afirmam que Deus é Soberano, que sabe de tudo, ou ainda, que sempre soube de tudo; que ele não sofre atualização diacrônica em decorrência dos fatos da saga de seus relacionamentos com o homem, que não regride, nem é surpreendido. Porém, ao lado dessas afirmações e pondo-as sob prova de veracidade, acreditam também que cabe ao homem a maior participação em um estado decisório da questão, no que diz respeito a sua salvação, pelo engajamento do qual ele é plenamente responsável, sem o qual nada será levado a efeito.
Acreditam que o homem é neutramente livre, e, na medida em que afirmam que Deus sabe de tudo, e que tudo está escrito, determinado por sua regência soberana, também afirmam que nada, que diga respeito à decisão que compete ao homem está de fato decidido.
Deus sabe de tudo, mas o homem ainda não escreveu sua historia. Ou seja, o arminianismo, no que concerne à Soberania de Deus, resvala, mesmo que seja em parte, na teologia reformada, mas no que se aventura em afirmar sobre livre arbítrio, comunga, plenamente, com o teísmo aberto. Nesse sentido, o teísmo aberto é menos contraditório do que o arminianismo, pois enquanto àquele se rende, embora equivocadamente, a não aceitar a realidade das duas premissas ora abordadas, o arminianismo segue contradizendo-se julgando ser possível conceber, biblicamente, a simultaneidade das duas premissas. O Teísmo aberto erra por dizer que Deus não é soberano e que o homem é plena e totalmente livre. O arminianismo erra por dizer que Deus e o homem são soberanos.
Para o arminiano, tanto Deus é soberano e decide e determina a história, como também é o homem que, pode por si só, com base em escolhas fundamentadas em sua volição neutra, escrever sua própria história, para o “louvor de sua glória antropocêntrica”.
O arminiano diz que Deus sabe de tudo e determina tudo para os seus devidos fins, exceto a salvação. Assim afirmam, sem preocupação alguma de serem acusados de contradição, que Deus sabe de tudo, inclusive sobre aqueles que serão salvos, muito embora seja do homem a escolha, que antes de sua decisão, tem a sua frente uma história limpa, branca e ainda não escrita, e muito embora Deus já tenha escrito seu desfecho, pois sabe de tudo. Vai entender.
Os proponentes do livre arbítrio ainda não analisaram a fundo, as consequencias decisórias de afirmar que Deus é Soberano, bem como também não refletem no clássico erro lógico, teológico e bíblico que subjaz na afirmação a favor do livre arbítrio do homem, ao lado da crença em um Deus Soberano.

O Calvinismo

No calvinismo ou na teologia da reforma deparamo-nos com a crença em um Deus plenamente Soberano. Plenamente quer dizer que não há nada no mundo além ou aquém de seus decretos. Todas as coisas que acontecem no mundo não só contribuem para os seus planos, mas são decretados, em primeiríssima instancia a favor dos seus planos. Não é o caso em que Deus tenha um senso apurado de oportunidade para que se valha das circunstâncias que se descortinam diante dos seus olhos, dadas pela ação do homem livre, para levar a termo seu intento, até porque nada nesse mundo acontecerá sem seu aval de forma em que algum acontecimento possa surpreendê-lo. Mas sim, quer dizer, que todas as coisas que ora acontecem, só acontecem porque Deus quis que tais coisas acontecessem, levando-nos a crer que o que acontece no mundo, não fora permitido por Deus como plano corretivo pra tentar consertar o que ele ou o homem fizeram de errado, nem se trata de uma ação simplesmente punitiva que ele permitiu sobrevir sobre o homem, quando este, desobedecendo-lhe, fez o que ele não queria que se fizesse (Sl 135.5). Enfim, passado, presente e futuro são eternamente redundados por Deus em um Soberano “agora”.
Se Deus é Soberano e controla todas as coisas, então não será exagero da parte do calvinista, valer-se de todos os versículos que ratifique tal doutrina e esgotar toda a sua linguagem e pena argumentativa para reafirmar que Deus é Soberano e reina sobre todos os acontecimentos. Se todos os acontecimentos são submetidos à regência da batuta divina, qual seria a base pela qual se eximiria a salvação e o destino da jurisdição dessa soberania?
Se Deus permite, ele assim o fez por razões voluntariamente soberanas e não forçosamente permitidas a contragosto.
Como um exemplo, o Calvinista diz: Se Deus estava na Governança de José, por meio da qual, proveu alimento para o mundo em tempos de fome, então isso significa dizer que os caminhos pelos quais José trilhou, que o fizeram chegar sob essas circunstâncias, foram todos providos por Deus. Toda dor de José, como a traição, A ira e inveja dos seus irmãos, o desejo erótico da mulher de potifá sobre José, a escravidão, o falso testemunho contra sua integridade, a prisão, todas as coisas contribuíram para o desfecho que Deus lhe havia sempre determinado. Se Deus opera segundo o conselho de sua vontade, e se sua vontade se revela tanto nos meios como nos fins, então tudo que fora acometido a José, estava sob plena ação, autorização e controle de Deus. Isso vale para quaisquer que forem os acontecimentos lançados sobre a mesa. Se não há nada acontecendo à margem de seu conhecimento, e se, tendo poder para intervir não intervém, é porque ele quer que tal coisa aconteça para levar à cabo seu Soberano e misterioso propósito. Compreender tais planos, não se constitui num quesito que ele exija do homem para que depois de compreendidos, possa então agir. Ele simplesmente age, e não deve satisfações a ninguém do porque de suas ações (Is 45.7 – Rm 11.35).
Se Deus é imutável e eterno, então tudo que ele deseja fazer, ele sempre desejou fazer, desde toda eternidade, posto que uma ação, manifestação ou intervenção de Deus, não é causada por uma ação que a anteceda ou que a torne necessária, de moda a forçá-lo a recriar a circunstância por meio de novas ações, moldando-a ao comportamento do homem, insurgido contra um plano primeiro ou para corrigir aquilo que deu errado. Deus é o fim de todas as coisas, o que nos levar a afirmar que nada força-o a fazer o que ele fez e faz, senão ele próprio.
Para o Calvinista, a história do mundo não está sendo escrita, na medida em que homens se voluntariam para co-participarem nos desígnios de Deus, embora seja a história escrita com participação dos feitos humanos (mas não de forma ativa ou neutra, senão sob supervisão divina). Por exemplo, o fato de Deus perguntar “A quem enviarei e quem a de ir por nós?”(Is 6.8) não significa que ele não enviaria alguém, e ansiava que alguém se manifestasse a tempo, a fim de que não visse ele seus planos sendo mais uma vez frustrados, pela inexistência de engajamento humano, mas sim que ele usaria alguém, tendo como resposta, a prontidão (Deus lhe capacitara a isso) de Isaias.
Deus é Soberano e o homem é responsável. Contudo, aqui, a responsabilidade do homem não é definida pelo quanto este homem é livre, mas sim pela vontade de Deus em imputá-lo responsalidade, em razão de seus muitos pecados. Nesse sentido, não há contradições entre um e outro, posto que a responsabilidade do homem não se nivela com a Soberania divina, antes, àquela submete-se a esta (Rm 3.4)
Conclusão

Enfim, O teísmo aberto crê na liberdade humana em detrimento da  plena soberania divina. O calvinismo crer na Soberania divina, em detrimento da liberdade neutra do homem, embora creia em sua responsabilidade em tudo que faz. Já o Arminianismo, diz crer nas duas coisas.
Querido Leitor, analise os textos abaixo, e rejeite, para glória de Deus, o teísmo aberto e o arminianismo, que doravante, seguem minando contra o Ser de Deus e seus Atributos imutáveis, em detrimento de forçar uma liberdade humana, liberdade essa que o homem nunca teve isso porque Deus sempre foi Soberano.
Suposta Liberdade humana refutada:


“A sorte se lança no regaço, mas do SENHOR procede toda a determinação.” (Pv 16.33)
“O rei, pois, não deu ouvidos ao povo; porque esta revolta vinha do SENHOR, para confirmar a palavra que o SENHOR tinha falado pelo ministério de Aías, o silonita, a Jeroboão, filho de Nebate.” (1 Rs 12.15)
“Mas seu pai e sua mãe não sabiam que isto vinha do SENHOR; pois buscava ocasião contra os filisteus; porquanto naquele tempo os filisteus dominavam sobre Israel.” (Jz 14.4)
““E aumentou o seu povo em grande maneira, e o fez mais poderoso do que os seus inimigos.Virou o coração deles para que odiassem o seu povo, para que tratassem astutamente aos seus servos”. (Sl 105.24,25)
“E viram-no de longe e, antes que chegasse a eles, conspiraram contra ele para o matarem.” (Gn 37.18)
“Pelo que Deus me enviou adiante de vós, para conservar vossa sucessão na terra, e para guardar-vos em vida por um grande livramento.” (Gn 45.7)
“Eia agora vós, que dizeis: Hoje, ou amanhã, iremos a tal cidade, e lá passaremos um ano, e contrataremos, e ganharemos; Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece. Em lugar do que devíeis dizer: Se o Senhor quiser, e se vivermos, faremos isto ou aquilo. Mas agora vos gloriais em vossas presunções; toda a glória tal como esta é maligna.” (Tg 4.13-16)
“Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre, te santifiquei; às nações te dei por profeta.” (Jr 1.5)
“Mas, quando aprouve a Deus, que desde o ventre de minha mãe me separou, e me chamou pela sua graça,” (Gl 1.15)
“Faz com que a mulher estéril habite em casa, e seja alegre mãe de filhos. Louvai ao SENHOR.” (Sl 113.9)
“Com setenta almas teus pais desceram ao Egito; e agora o SENHOR teu Deus te pôs como as estrelas dos céus em multidão.” (Dt 10.22)
“Esperá-los-íeis até que viessem a ser grandes? Deter-vos-íeis por eles, sem tomardes marido? Não, filhas minhas, que mais amargo me é a mim do que a vós mesmas; porquanto a mão do SENHOR se descarregou contra mim.” (Rt 1.13 – Noemi responsabiliza à Deus pelos seus infortúnios, causados pelas mãos dos assassinos de seus filhos)
“Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais em continuação foram formadas, quando nem ainda uma delas havia.” ( Sl 139.16)
 
Soberania de Deus ratificada:

“O conselho do SENHOR permanece para sempre; os intentos do seu coração de geração em geração.” (Sl 33.11)
“Tudo o que o SENHOR quis, fez, nos céus e na terra, nos mares e em todos os abismos.” (Sl 135.6)
“Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido.” (Jó 42.2)
“O SENHOR fez todas as coisas para atender aos seus próprios desígnios, até o ímpio para o dia do mal.” (Pv 16.4)
“E todos os moradores da terra são reputados em nada, e segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem possa estorvar a sua mão, e lhe diga: Que fazes?” (Dn 4.35)
“Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas.” (Dn 4.7)

Graça e Paz
Mizael Reis

[1] Visão de mundo, ou as premissas pelas quais se compreende o mundo, em nosso caso, Deus, o homem, e o mundo.
[2] O teísmo aberto, fora batizado com esse nome em 1980 pelo adventista Richard Rice.

Nota:*Texto disponível originalmente em "Somente pela Escritura e por ela Somente"