"A Verdade não precisa de defesa; por si mesma ela se defende. A Verdade precisa ser proclamada!"

11 outubro 2009

Dagg Estava Certo?








Por Gregory A.Wills [2]


Há cento e cinqüenta anos, John Dagg sugeriu que “quando a disciplina deixa uma igreja, Cristo sai da igreja com ela”. Naquela época, os Batistas, bem como a maioria dos evangélicos, praticavam uma disciplina eclesiástica abrangente. Ao longo dos cinqüenta anos seguintes, a maioria dos evangélicos abandonou essa prática. Hoje em dia, durante pelo menos três gerações consecutivas, as igrejas evangélicas do ocidente têm negligenciado a disciplina; apesar de, durante esse período, o Senhor tenha abençoado muitas dessas igrejas espiritual e materialmente. Então, será Dagg estava certo?

Achamos que DAGG deveria estar certo, mas...

Não há dúvidas de que pensamos que Dagg deveria estar certo. Negligenciar a disciplina na igreja é desobedecer a Jesus Cristo. Em Mateus 18:15-17, o Senhor ordena que as igrejas exerçam a disciplina, assim como em muitas outras passagens do Novo Testamento. No entanto, o fato de que Cristo ainda não abandonou nossas igrejas evangélicas é evidente, apesar de nossas igrejas terem abandonado a disciplina. Esse fato nos lembra que não existe uma simples correlação entre a desobediência de uma igreja, por um lado, e a ruína espiritual e o abandono por parte de Cristo, por outro. Nosso Senhor julga nossa desobediência no tempo e na medida de sua sabedoria.

Um fator que pode ter adiado o julgamento de Deus é que nossas igrejas têm sido fiéis em algumas áreas importantes do trabalho evangélico. Mas, na verdade, nossa ambição por propagar o evangelho tem sido um obstáculo na questão da obediência a Cristo no que diz respeito à disciplina. Muitos pastores e membros de igrejas temem que disciplinar os membros em desobediência resulta mais em prejuízos do que em benefícios para o avanço do evangelho. Isso levará "boas" famílias à vergonha e à ira, tornando-nos objeto de escárnio e aversão entre os incrédulos, que vêem a disciplina como algo incivilizado e contrário ao senso comum e à compaixão. Nossas igrejas negligenciam a disciplina por temer que essa prática prejudique a causa de Cristo.

Entretanto, mesmo que seja por motivações virtuosas, a desobediência continua sendo desobediência, e teremos de prestar contas por isso. O fato de o Senhor ter demonstrado misericórdia e paciência para com as igrejas desobedientes não é uma desculpa para sua desobediência. Estamos abusando da misericórdia do Senhor e deixando de temer o seu julgamento.

No entanto, negligenciar a disciplina eclesiástica põe em risco outros aspectos fundamentais da igreja. A perda da disciplina na igreja enfraquece os seus próprios alicerces.

ENFRAQUECENDO OS ALICERCES DA IGREJA

As igrejas que falham em praticar a disciplina enfraquecem sua característica regeneradora. Ao omitir a disciplina, elas toleram um comportamento pecaminoso na membresia e tornam-se um lugar confortável para as pessoas não regeneradas.

As igrejas que falham na prática da disciplina também enfraquecem a santidade da Igreja, visto que enfraquecem os crentes em sua luta contra o pecado. Jesus providenciou a disciplina como um remédio de seu evangelho contra o pecado, sem o qual a nossa santificação será mais lenta. A aplicação da disciplina eclesiástica às doenças do pecado fortalecerá os cristãos em sua batalha contra Satanás, o mundo e a carne, ao longo de suas vidas.

As igrejas que falham em praticar a disciplina favorecem o enfraquecimento de sua espiritualidade, de seu zelo e de sua devoção ao Salvador. A disciplina ensina a igreja a obedecer ao Senhor nas áreas que são mais ofensivas, desagradáveis e contrárias aos pensamentos tolerantes da cultura. Ao exercitar a disciplina, comprometemo-nos a andar no caminho espiritual de Cristo, mesmo quando a razão, a compaixão e a civilidade parecem argumentar que não devemos obedecer. Dessa forma, os cristãos aprendem a confiar na sabedoria de Cristo em vez de confiarem na sabedoria do mundo. Aprendem a obedecer a Cristo, independentemente das conseqüências desconfortáveis.

Negligenciar a disciplina é um treinamento para não tomarmos a nossa cruz; não temermos a Deus; não sofrermos voluntariamente por amor a Cristo e não nos opormos ao mundo. E uma vez que as igrejas estejam bem treinadas pela negligência na prática da disciplina, perderão o seu compromisso com o próprio evangelho.

Quando uma igreja abandona a disciplina, abandona CRISTO

É por essa razão que Dagg afirmou que quando a disciplina deixa uma igreja, Cristo sai da igreja com ela. No entanto, talvez seja mais apropriado dizer que quando uma igreja abandona a disciplina, abandona a Cristo. As igrejas não têm a intenção de abandonar a Cristo e não podem fazê-lo completamente. Mas, ao negligenciarem a disciplina, começam a criar uma barreira entre elas e Jesus.

Além disso, o princípio que as levou a abandonar a disciplina funciona como um fermento, agindo de forma abrangente para enfraquecer o compromisso da igreja com Cristo, bem como sua capacidade para tomar a sua cruz e segui-lo. Ela ficará cada vez mais conformada ao mundo. E o abandono da igreja, por parte de Cristo, será apenas uma questão de tempo.

No Novo Testamento, o Senhor julgou as igrejas que toleraram ofensas contra a lei de Deus. A igreja de Corinto observava a Ceia do Senhor de um modo pecaminoso, tolerando imoralidade, divisões, parcialidade e desrespeito entre membros. Por essa razão, Deus visitou alguns deles com doenças e outros, com a morte (1 Co 11:30). Tanto o texto em grego como o contexto sugerem que o fracasso deles não se devia tanto a uma falha em reconhecer a presença de Cristo ou em "discernir o corpo", mas à uma falha na disciplina; em “julgar o corpo” (1 Co 11:29 ). De qualquer forma, há uma conexão direta entre o fato da igreja de Corinto tolerar o comportamento pecaminoso e o julgamento de Deus sobre ela.

Jesus repreendeu as igrejas que desobedeceram sua ordem de exercer, com fidelidade, a disciplina eclesiástica. Ele advertiu as igrejas de Pérgamo e Tiatira por negligenciarem a disciplina na igreja (Ap 2:14-15, 20). A igreja de Pérgamo tolerava aqueles que sustentavam a "doutrina de Balaão" e outros que apoiavam a "doutrina dos nicolaítas". A igreja de Tiatira tolerava uma falsa profetisa. Jesus ordenou-lhes o arrependimento, que só poderia ser cumprido por meio da disciplina eclesiástica. Não sabemos até que ponto essas igrejas se arrependeram de sua falha na questão da disciplina. No entanto, sabemos que, no final, Jesus as julgou, abandonando-as.

SE NOS RECUSARMOS A NOS ARREPENDER...

Se nossas igrejas se recusam a se arrependerem por tolerarem o pecado não arrependido entre os membros, podemos esperar julgamento. Portanto, não abusemos da misericórdia do Senhor. Consideremos bem o que a repreensão do Senhor, feita à igreja de Sardes, em Apocalipse 3:1-3 tem a dizer às nossas igrejas:

Conheço as tuas obras, que tens nome de que vives e estás morto. Sê vigilante e consolida o resto que estava para morrer, porque não tenho achado íntegras as tuas obras na presença do meu Deus. Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, guarda-o e arrepende-te. Porquanto, se não vigiares, virei como ladrão, e não conhecerás de modo algum em que hora virei contra ti.

Naquela hora, descobriremos que Dagg estava certo.

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Traduzido por: Waléria Coicev

Copyright:

© 9Marks & © Editora FIEL 2009.

Traduzido do original em inglês:Was
Dagg Right?
Com a permissão do ministério 9Marks
.

Nota: [1] A foto é do pr. John Leadley Dagg. Ele nasceu em Middleburgb, município de Loundoun, Virgínia, nos Estados Unidos da América, em 13 de fevereiro de 1794. Foi o primeiro filho do casal Robert Dagg e Sarh (Davis) Leadley. Pastor evangélico batista, téologo, filantropo e conspícuo educador, John Dagg é "um dos mais eruditos teólogos batistas do Sul". Ele faleceu em Hayneville, Alabama, em 11 de junho de 1884.

Leia na íntegra o texto escrito pelo pr. Gilson Santos em Biografias

[2] Gregory A. Wills é coordenador e professor da matéria “História da Igreja”, no Seminário Teológico Batista do Sul, em Louisville, Kentucky. Também é autor dos livros Southern Baptist Theological Seminary, 1859-2009. New York: Oxford Unversity Press Inc., 2009 e Democratic Religion. New York: Oxford Unversity Press Inc., 1997.

03 outubro 2009

Acerca dos Evangelhos Sem Cristo e da Graça







Por Isaías Medeiros [1]

O Cristianismo vive dias difíceis. De um lado, há uma corrente mais voltada ao místico, ao emocional, que se sustenta à base de sinais, sentimentos, mantras, confissão positiva, rituais pagãos, que prega a pobreza e a resignação do homem como pecados ou maldições, e a sua ascenção política ou financeira como objetivos primários e evidências da presença de Deus em sua vida.

De outro, encontra-se uma ala mais intelectualizada da Igreja, formada por teólogos, filósofos, cientistas sociais, escritores, políticos etc. Estes, tomados em seu conjunto (evidentemente, há excessões), defendem uma vivência mais racional da religião, menos disposta a tolerar o que chamam de “legalismo” e pregam subliminarmente que a finalidade do Evangelho é a felicidade do homem na terra – sem prejuízo de uma vida eterna futura –, e que os ordenamentos bíblicos servem apenas como um referencial, portanto, moldáveis a cada situação específica.

Fazendo o comparativo entre estes dois recortes da Igreja (que, seguramente, não são os únicos possíveis), temos a impressão de estarmos diante de “dois povos distintos”, com características completamente diferentes entre si. Entretanto, existe uma semelhança brutal entre eles: Cristo NÂO está no centro. Ambos são humanistas ou antropocêntricos.

Cada qual à sua maneira, os dois põem o homem no centro do mundo, como o tomador-mor de decisões (“eu decreto…”; “eu determino…”) e para e pelo qual todas as coisas devem se ajustar para a sua felicidade, para a sua satisfação pessoal (humana, e não espiritual).

Um movimento crê que o homem na realidade é um deus, com poderes iguais aos de Jesus Cristo, mas que precisa aprender a desenvolvê-los e utilizá-los para conseguir tudo o que deseja. O outro, prega um evangelho relativista, recoberto por uma falsa aparência de piedade, cujo objetivo é o de apenas ajustar a Bíblia as práticas que entendam serem seus “direitos humanos”. Dessa forma, a Palavra de Deus perde a sua inerrância, e o seu cumprimento, conseqüentemente já não depende mais da sua autoridade intrínseca, mas do julgamento humano de “quando ela está certa ou não”. Paulo já havia dito que chegariam dias em que a sã doutrina não seria mais suportada, e que se multiplicariam os “especialistas” para justificar toda e qualquer heresia ou perversão que se desejasse praticar (2 Timóteo 4:3-4). Em outras palavras, o homem assume uma autoridade superior a da Bíblia. A mente humana, e não a mente de Cristo no homem é quem passa a tomar as decisões.

Por estes motivos é que temos hoje “evangelhos” para todos os gostos (com mais ou com menos emoção), todos os bolsos (nem é preciso comentar), e todos os credos (ecumenismo/relativismo religioso). O Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo tem sido diluído em meio a preferências e opiniões pessoais, interesses particulares diversos aos do Cristianismo e ideologias contrárias à fé, como o humanismo e o comunismo.

A Graça de Deus é multiforme. Isto quer dizer que ela se apresenta de variadas maneiras para diferentes pessoas e circunstâncias. Porém, em todas os casos a figura central é a de Cristo. É por meio d’Ele que a Graça existe, e ela existe para conduzir o homem a Deus. Significa dizer que não há nenhum “manual de instruções” que possamos seguir para automaticamente sermos salvos, pois a nossa salvação provém do sacrifício não merecido de Jesus por nós na cruz. Todavia, a Graça não anula as recomendações bíblicas dadas ao homem pelo Espírito Santo. Um homem não pode salvar a si mesmo pelas obras que pratique, embora possua o livre-arbítrio[2] para aceitar a Jesus e por meio do Seu sacrifício ser salvo. Por esta mesma prerrogativa, porém, ele pode escolher o mal e perder sozinho a sua alma. A Graça subentende que as obras do homem não podem salvá-lo, e não que estas obras não possam condená-lo…

Precisamos voltar à simplicidade do Evangelho pregado pelo Homem que nasceu numa manjedoura; que não recebeu glória dos homens (João 5:41); que a Bíblia diz que chorou (João 11:35) e que suou sangue (Lucas 22:44), mas não que se alegrou carnalmente, e sim no Espírito Santo (Lucas 10:21). Necessitamos parar de ler o que a Bíblia não diz e voltarmos a colocar a Cristo no centro das nossas vidas.

FONTE: O CRISTÃO REVOLTADO!

Nota: [1] A foto não consta da postagem original. A reprodução foi gentilmente autorizada pelo autor, cujo texto original pode ser lido AQUI.

[2] Em todo o texto, apenas não concordei com a citação quanto ao "livre-arbítrio". Contudo, ela é irrelevante ao objetivo do texto. Apenas faço a ressalva porque, ainda que irrelevante, ela apresenta um conceito com o qual não concordo teologicamente.

21 setembro 2009

O Mistério da Iniquidade






R. C. Sproul




R. C. Sproul nasceu em 1939, no estado da Pensilvânia. É ministro presbiteriano, pastor da Igreja St. Andrews Chapel, na Florida; fundador e presidente do ministério Ligonier, professor e palestrante em seminários e conferências; autor de dezenas de livros, vários deles publicados em português; possui um programa de rádio chamado: Renove sua Mente, o qual é transmitido para uma grande audiência nos EUA e para mais de 60 outros países; Suas graduações incluem passagem pelas seguintes universidades e centros de estudos teológicos: Westminster College, Pennsylvania, Pittsburgh Theological Seminary, Universidade livre de Amsterdã e Whitefield Theological Seminary. É casado com Vesta Ann e o casal tem dois filhos, já adultos.



O problema clássico da existência do mal tem sido chamado o tendão de Aquiles da fé cristã. Filósofos como John Stuart Mill têm argumentado que a existência do mal demonstra que Deus não é onipotente, nem bom, nem amoroso. O raciocínio é que, se o mal existe à parte do soberano poder de Deus, então, por lógica irresistível, Deus não pode ser considerado onipotente. Por outro lado, se Deus tem realmente poder para impedir o mal, mas falha em fazê-lo, isso se reflete em seu caráter, indicando que ele não é bom nem amoroso.

Por causa da persistência desse problema, a igreja tem visto inúmeras tentativas no que tem sido chamado de teodicéia. O vocábulo teodicéia envolve a combinação de duas palavras gregas: a palavra que significa Deus, theos, e a palavra que significa justificação, dikaios. Portanto, uma teodicéia é uma tentativa de justificar a Deus pela existência do mal (como vemos, por exemplo, em Paraíso Perdido, escrito por John Milton).

Essas teodicéias têm abrangido desde uma simples explicação de que o mal ocorre como resultado direto do livre-arbítrio do homem até às mais complexas tentativas filosóficas como a de Leibniz. Em sua teodicéia, que foi satirizada na obra Cândido, escrita por Voltaire, Leibniz fez distinção entre três tipos de males: o mal natural, o mal metafísico e o mal moral. Nesse esquema tríplice, Leibniz argumentou que o mal moral é uma conseqüência inevitável e necessária da finitude, que é uma deficiência metafísica de completude do ser. Visto que toda criatura está aquém de ser infinita, isso produz necessariamente defeitos como os que vemos no mal moral. O problema dessa teodicéia é que ela não leva em conta a idéia bíblica do mal. Se o mal é uma necessidade metafísica para as criaturas, é óbvio que Adão e Eva tinham de ser maus antes da Queda e terão de continuar sendo maus mesmo depois da glorificação, no céu.

Até hoje, ainda preciso achar uma explicação satisfatória para o que os teólogos chamam de mistério da iniqüidade. Receio que muitas pessoas não sentem quão graves são as explicações que levam em conta alguma dimensão do livre-arbítrio. A simples presença do livre-arbítrio não é suficiente para explicar a origem do mal, visto que ainda temos de perguntar como um ser bom se inclinaria livremente a escolher o mal. A inclinação para a vontade de agir de maneira imoral já é um sinal de pecado.

Uma das mais importantes abordagens do problema do mal foi apresentada inicialmente por Agostinho e, mais tarde, por Tomás de Aquino. Eles argumentaram que o mal não é um ser independente. O mal não pode ser definido como uma coisa, ou uma substância, ou algum tipo de ser. Pelo contrário, o mal é sempre definido como ação, uma ação que falha em satisfazer um padrão. Nesse sentido, o mal foi definido em termos de ser tanto uma negação (negatio) do bem como uma privação (privatio) do bem. Em ambos os casos, a própria definição do mal depende de um entendimento anterior do bem. Sendo assim, como argumentou Agostinho, o mal é parasitário, ou seja, depende do bem para sua própria definição. Pensamos no pecado como algo injusto, que envolve desobediência, imoralidade e coisas semelhantes. Para serem definidas, todas essas coisas dependem do conteúdo positivo do bem. Agostinho argumentou que, embora os cristãos enfrentem dificuldades para explicar a presença do mal no universo, o pagão tem um problema que é duas vezes mais difícil. Antes de alguém abordar o problema do mal, precisa primeiramente lidar com a existência antecedente do bem. Aqueles que reclamam do problema do mal enfrentam o problema de definir a existência do bem. Sem Deus não há um padrão absoluto para o bem.

Nos dias contemporâneos, esse problema tem sido resolvido por negar tanto o bem como o mal. Todavia, essa atitude encontra dificuldades enormes, especialmente quando alguém sofre às mãos de alguém que lhe inflige mal. É fácil negarmos a existência do mal, até que nós mesmos sejamos vítimas da ação perversa de outrem.

Embora terminemos nossa buscar por esclarecer a origem do mal, uma coisa é certa: visto que Deus tanto é bom como onipotente, temos de concluir que, em sua onipotência e bondade, tem de haver lugar para a existência do mal. Sabemos que Deus mesmo nunca faz o que é mau. Contudo, ele também ordena o que deve acontecer. Ainda que Deus nunca faça nem crie o mal, ele ordena que o mal exista. Se o mal realmente existe, e se Deus é soberano, é óbvio que ele pode impedir o mal. Se Deus permitiu a entrada do mal neste universo, isso só pode ter ocorrido por sua soberana decisão. Visto que as soberanas decisões de Deus sempre acompanham seu caráter perfeito, temos de concluir que a sua decisão de permitir a existência do mal é uma boa decisão.

Temos de ser cuidadosos neste ponto. Nunca devemos afirmar que o mal é bom ou que o bem é mal. Mas isso não é o mesmo que dizer: “É bom que haja o mal”. Repito, mais uma vez: é bom que haja o mal; do contrário, ele não poderia existir. Nem mesmo essa teodicéia explica o “como” da entrada do mal no mundo. Apensar considera o “porquê” da realidade do mal. Sabemos com certeza que o mal existe. Ele existe em nós e em nosso comportamento. Sabemos que a força do mal é extraordinária e traz grande tristeza e sofrimento ao mundo. Também sabemos que Deus é soberano sobre o mal e, em sua soberania, não permitirá que o mal tenha palavra final. O mal sempre serve e servirá aos melhores interesses de Deus, que, em sua bondade e soberania, ordenou a derrota completa do mal e sua erradicação deste universo. Nesta redenção, encontramos nosso gozo e descanso – e até àquele tempo, vivemos em um mundo caído.

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Traduzido por: Wellington Ferreira

Copyright:© Ligonier Ministries / Tabletalk Magazine

© Editora FIEL 2009.

Traduzido do original em inglês:The Mistery of Iniquity, by R. C. Sproul. Revista Tabletalk, vol. 32, nº 12. Com permissão de Ligonier Ministries.

12 setembro 2009

Quem escolhe? Deus ou nós?


Dois Caminhos










Por Tiago Vieira

Essa pergunta tem levantado acirrados debates teológicos. Somos nós que escolhemos ser salvos ou é Deus, em Sua soberania, que escolhe quem Ele quer? Será que todos tem oportunidade de salvação?
A princípio talvez sua resposta seja: "somos nós que escolhemos, afinal todos tem oportunidade". Mas será que é isso mesmo que a Bíblia ensina? Vamos analisar os textos bíblicos e depois você poderá responder com mais precisão.

A Bíblia não diz que Deus amou o mundo?

Sim, com certeza!

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”

João 3:16 RA

E amar o mundo não significa escolher todas as pessoas do mundo?

Não! Veja o que Jesus falou sobre Seus discípulos:

“Se vocês fossem do mundo, o mundo os amaria por vocês serem dele. Mas eu os escolhi entre as pessoas do mundo, e vocês não são mais dele. Por isso o mundo odeia vocês.”

João 15:19 NTLH

Então não somos nós que escolhemos a Deus? É Ele que nos escolhe?

Exatamente. Assim Ele diz:

“Não foram vocês que me escolheram; pelo contrário, fui eu que os escolhi para que vão e dêem fruto e que esse fruto não se perca.”

João 15:16a NTLH

Quando Ele nos escolheu?

Antes da criação do mundo.

"Antes da criação do mundo, Deus já nos havia escolhido para sermos dele por meio da nossa união com Cristo, a fim de pertencermos somente a Deus e nos apresentarmos diante dele sem culpa..."

Efésios 1:4 NTLH

Mesmo sendo Deus que nos escolheu, será que Ele não nos escolheu por que sabia das nossas obras futuras?

Não, pois a salvação não depende das nossas obras, mas sim do plano e da graça de Deus.

"Deus nos salvou e nos chamou para sermos o seu povo. Não foi por causa do que temos feito, mas porque este era o seu plano e por causa da sua graça. Ele nos deu essa graça por meio de Cristo Jesus, antes da criação do mundo."

2 Timóteo 1:9 NTLH

Tem algum exemplo na Escritura que mostre isso?

Sim, Jacó e Esaú são um bom exemplo de que Deus não leva em consideração as obras de ninguém na hora de escolher.

"Mas, para que a escolha de um deles fosse completamente de acordo com o plano de Deus, o próprio Deus disse a Rebeca: “O mais velho será dominado pelo mais moço.” Disse isso antes de eles nascerem e antes de fazerem qualquer coisa, boa ou má. Assim ficou confirmado que é de acordo com o seu plano que Deus escolhe aqueles que ele quer chamar, sem levar em conta o que eles tenham feito. Como dizem as Escrituras Sagradas: “Eu escolhi Jacó, mas rejeitei Esaú.”

Romanos 9:11 e 12 NTLH

Amar um e rejeitar outro antes de nascerem não é uma grande injustiça de Deus?

De modo nenhum. Veja:

"Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum! Pois ele diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão. Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia."

Romanos 9:14-16

Que direito Deus tem pra agir assim?

O direito que o Criador tem sobre aquilo que Ele cria.

"Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra?"

Romanos 9:20 e 21

Mas por que Deus escolhe uns e não escolhe outros?

Porque quer mostrar o seu poder sobre os vasos da ira e também mostrar a sua glória nos vasos de misericórdia.

"E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para perdição, para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou, os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios?"

Romanos 9:22-24 RC

Acho que Deus pode escolher pessoas para muitas coisas, mas não para a salvação. Onde a Bíblia diz que é escolha para a salvação?

Em várias passagens das Escrituras, veja um exemplo:

"Entretanto, devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados pelo Senhor, porque Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade, para o que também vos chamou mediante o nosso evangelho, para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo."

2 Tessalonicenses 2:13 e 14 RA

Será que não foi por que eu quis buscar a Deus que Ele me deu a salvação?

Não, pois o homem natural, afastado de Deus, nunca o busca. Como está escrito:

"Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só."

Romanos 3:10-12 RC

Sim, mas eu tive fé. A minha fé não veio antes da escolha de Deus?

Não! Primeiro é preciso que Deus escolha a pessoa, para que então ela tenha fé.

"Pois esta é a ordem que o Senhor Deus deu a nós, o seu povo: “Eu coloquei você como luz para os outros povos, a fim de que você leve a salvação ao mundo inteiro.” Quando os não-judeus ouviram isso, ficaram muito alegres e começaram a dizer que a palavra do Senhor era boa. E creram todos os que tinham sido escolhidos para ter a vida eterna."

Atos 13:47 e 48 NTLH

Mas a fé é minha ou é um dom de Deus?

A fé é um dom de Deus!

"Por causa da bondade de Deus para comigo, me chamando para ser apóstolo, eu digo a todos vocês que não se achem melhores do que realmente são. Pelo contrário, pensem com humildade a respeito de vocês mesmos, e cada um julgue a si mesmo conforme a fé que Deus lhe deu."

Romanos 12:3 NTLH

E o meu arrependimento?

Até o arrependimento tem que ser concedido por Deus.

"E ao servo do Senhor não convém contender, mas, sim, ser manso para com todos, apto para ensinar, sofredor; instruindo com mansidão os que resistem, a ver se, porventura, Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade e tornarem a despertar, desprendendo-se dos laços do diabo, em cuja vontade estão presos."

2 Timóteo 2:24-26 RC

Então ninguém pode ser salvo se Deus não permitir?

Exatamente. Foi isso que Jesus falou.

"E prosseguiu: Por causa disto, é que vos tenho dito: ninguém poderá vir a mim, se, pelo Pai, não lhe for concedido."

João 6:65 RA

Há mais textos que falam isso?

Sim. Veja:

"Todos aqueles que o Pai me dá virão a mim; e de modo nenhum jogarei fora aqueles que vierem a mim. Pois eu desci do céu para fazer a vontade daquele que me enviou e não para fazer a minha própria vontade. E a vontade de quem me enviou é esta: que nenhum daqueles que o Pai me deu se perca, mas que eu ressuscite todos no último dia."

João 6: 37-39 NTLH

Então por que Jesus falou até por meio de parábolas? Não foi pra que todas as pessoas pudessem entender Sua mensagem?

Muito pelo contrário, Ele usou parábolas justamente para que os que não foram eleitos não entendam, não se arrependam e, conseqüentemente, não sejam perdoados.

"Jesus disse a eles: —A vocês Deus mostra o segredo do seu Reino. Mas para os que estão fora do Reino tudo é ensinado por meio de parábolas, para que olhem e não enxerguem nada e para que escutem e não entendam; se não, eles voltariam para Deus, e ele os perdoaria."

Marcos 4:11 e 12 NTLH

Eu nunca tinha visto as coisas dessa forma. Pode me mostrar mais textos que mostrem isso?

Sim. O apóstolo Paulo, após falar sobre o povo de Israel e mostrar que mesmo dentro do povo escolhido haviam escolhidos, fala sobre a época da igreja:

"A mesma coisa também acontece agora, isto é, por causa da graça de Deus, ainda existe um pequeno número daqueles que ele escolheu. Essa escolha se baseia na graça de Deus e não no que eles fizeram. Porque, se a escolha de Deus se baseasse no que as pessoas fazem, então a sua graça não seria a verdadeira graça. E isso quer dizer que não foi o povo de Israel que encontrou o que estava procurando. Quem encontrou foi apenas um pequeno grupo que Deus escolheu; os outros não quiseram ouvir o chamado de Deus. Como dizem as Escrituras Sagradas: 'Deus endureceu o coração e a mente deles; deu-lhes olhos que não podem ver e ouvidos que não podem ouvir até o dia de hoje.' "

Romanos 11:5-8 NTLH

Deus endurece o coração e a mente das pessoas?

Sim, Ele endurece o coração e a mente de quem quer quando isso é necessário para cumprir Seu plano.

"Cegou-lhes os olhos e endureceu-lhes o coração, para que não vejam com os olhos, nem entendam com o coração, e se convertam, e sejam por mim curados."

João 12:40 RA

Pode mostrar algum exemplo disso na Bíblia?

Sim. Faraó é um bom exemplo de alguém que teve o coração endurecido por Deus.

"Porém o SENHOR endureceu o coração de Faraó, e não os ouviu, como o SENHOR tinha dito a Moisés."

Êxodo 9:12 RC

"Porque, como está escrito nas Escrituras Sagradas, Deus disse a Faraó: “Foi para isto mesmo que eu pus você como rei, para mostrar o meu poder e fazer com que o meu nome seja conhecido no mundo inteiro.” Portanto, Deus tem misericórdia de quem ele quer e endurece o coração de quem ele quer."

Romanos 9:17 e 18 NTLH

Tenho uma dúvida: Judas Iscariotes era um escolhido?

Não, Judas não era um escolhido. Depois de lavar os pés dos discípulos, Jesus fala que eles foram escolhidos, exceto Judas.

"Eu afirmo a vocês que isto é verdade: o empregado não é mais importante do que o patrão, e o mensageiro não é mais importante do que aquele que o enviou. Já que vocês conhecem esta verdade, serão felizes se a praticarem. —Não estou falando de vocês todos; eu conheço aqueles que escolhi. Pois tem de se cumprir o que as Escrituras Sagradas dizem: 'Aquele que toma refeições comigo se virou contra mim'. Digo isso a vocês agora, antes que aconteça, para que, quando acontecer, vocês creiam que 'EU SOU QUEM SOU'."

João 13:16-19 NTLH

Pedro fala que Judas se desviou para ir para o seu próprio lugar.

“E, orando, disseram: Tu, Senhor, conhecedor do coração de todos, mostra qual destes dois tens escolhido, para que tome parte neste ministério e apostolado, de que Judas se desviou, para ir para o seu próprio lugar.”

Atos 1:24 e 25 RC

Isso quer dizer que algumas pessoas já estão predestinadas para a condenação?

Veja:

“Porque se introduziram furtivamente certos homens, que já desde há muito estavam destinados para este juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de nosso Deus, e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo.”

Judas 4 RC

Se é assim, então quer dizer que Deus criou essas pessoas para serem condenadas?

Exatamente.

“O Senhor fez tudo para um fim; sim, até o ímpio para o dia do mal.”

Provérbios 16:4 RC

Existem muitos escolhidos?

Jesus disse que não.

"Porque muitos são chamados, mas poucos, escolhidos."

Mateus 22:14 RC

E os escolhidos podem perder a salvação?

Não, pois ninguém pode arrebatar as ovelhas da mão de Jesus, e nada pode nos separar do amor de Deus, pois é Ele que nos justifica.

"As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar."

João 10:27-29 RA

"Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor."

Romanos 8:38 e 39 RA

"Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica."

Romanos 8:33 RA

Mas há pessoas que abandonaram a fé cristã. Elas não perderam a salvação?

Não, pois na verdade nunca foram salvas. A Bíblia diz que são como porcas que foram lavadas e voltaram para a lama. Jesus diz que nunca conheceu essas pessoas. Mesmo que tenham feito milagres, expulsado demônios e profetizado em Seu nome, nunca foram Dele.

"Portanto, aqueles que chegaram a conhecer o nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo e que escaparam das imoralidades do mundo, mas depois foram agarrados e dominados por elas, ficam no fim em pior situação do que no começo. Pois teria sido muito melhor que eles nunca tivessem conhecido o caminho certo do que, depois de o conhecerem, voltarem atrás e se afastarem do mandamento sagrado que receberam. O que aconteceu a essas pessoas prova que são verdadeiros estes ditados: 'O cachorro volta ao seu próprio vômito' e 'A porca lavada volta a rolar na lama'."

2 Pedro 2:20-22 NTLH

"Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade."

Mateus 7:21-23 RA

E o que acontecerá com aqueles que morreram sem conhecer a Palavra de Deus?

Perecerão, pois a única forma de salvação é a fé em Cristo.

"Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados."

Romanos 2:12 RC

"Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim."

João 14:6 RA

"E em nenhum outro há salvação; porque debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, em que devamos ser salvos."

Atos 4:12 RA

Pode citar mais textos que falam sobre o assunto?

Sim. Aí estão:

"... havendo sido predestinados, conforme o propósito dAquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da Sua vontade; com o fim de sermos para louvor da Sua glória ..."

Efésios 1:11-12

"Sabendo, amados irmãos, que a vossa eleição é de Deus; porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder ... e vós fostes feitos nossos imitadores ..."

1 Tessalonicenses 1:4-6

"... tudo sofro por amor dos escolhidos, para que também eles alcancem a salvação que está em Cristo Jesus ..."

2 Timóteo 2:10

"... segundo a fé dos eleitos de Deus ..."

Tito 1:1

"Mas vós sois a geração escolhida ... o povo adquirido ..."

1 Pedro 2:9

"... vencerão os que estão com Ele, chamados, e eleitos, e fiéis."

Apocalipse 17:14

"Assim como lhe deste poder sobre toda a carne, para que dê a vida eterna a todos quantos lhe deste."

João 17:2

"Pois pela graça de Deus vocês são salvos por meio da fé. Isso não vem de vocês, mas é um presente dado por Deus. A salvação não é o resultado dos esforços de vocês; portanto, ninguém pode se orgulhar de tê-la."

Efésios 2:8 e 9

"... o qual, tendo chegado, aproveitou muito aos que pela graça criam."

Atos 18:27

"Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou."

Romanos 8:28-30


"Ouvindo isto, os discípulos ficaram grandemente maravilhados e disseram: Sendo assim, quem pode ser salvo?
Jesus, fitando neles o olhar, disse-lhes: Isto é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível".

Mateus 19:25 e 26

"Para ele, os seres humanos não têm nenhum valor; ele governa todos os anjos do céu e todos os moradores da terra. Não há ninguém que possa impedi-lo de fazer o que quer; não há ninguém que possa obrigá-lo a explicar o que faz.”

Daniel 4:35

“Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu sou o Senhor, que faço todas estas coisas.”

Isaías 45:7

"Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar."

Mateus 11:27

"Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade."

Filipenses 2:13

Nesse estudo aprendemos que é Deus quem nos escolhe, e nos escolhe entre as pessoas do mundo. Descobrimos que Ele opera em nós tanto o querer quanto o efetuar, que é poderoso para endurecer o coração de quem quer, e ter misericórdia de quem quer, pois, assim como um oleiro, Ele tem poder sobre o barro para, da mesma massa, fazer um vaso para honra e outro para desonra, segundo a Sua vontade.

Vimos também que a escolha foi feita antes da criação do mundo, e não levou em conta as nossas obras, nem boas nem más. Deus fez Sua escolha de acordo com o Seu plano. O homem natural não pode nem quer buscar a Deus, pois a própria fé é um dom de Deus, e o arrependimento tem que ser concedido por Ele.

Aqueles que o Pai deu a Jesus inevitavelmente irão a Ele, e os que vão a Ele jamais serão lançados fora. Os eleitos nunca perecerão, pois ninguém pode arrebatar as ovelhas da mão de Jesus e da mão do Pai.

Espero que você seja fortalecido na fé em saber que é de Deus que depende a nossa salvação, e que Ele merece todo o crédito e todo o mérito pela obra realizada em nós.

Glória somente a Deus!

Fonte: Cristãos OnLine


03 setembro 2009

Cristianismo








Por Tiago Vieira

Único sistema de pensamento capaz de adquirir e fornecer informação correta sobre a realidade.

Durante toda a história o ser humano busca incansavelmente o conhecimento e a verdade, porém, todas suas teorias e métodos o levam ao vazio e a dúvidas ainda maiores. "Só sei que nada sei" foi a conclusão óbvia de Sócrates após investigar e refletir sobre a realidade.

O homem caído é incapaz de chegar ao conhecimento da verdade por causa dos efeitos noéticos do pecado. Sua depravação não é apenas moral, antes de tudo é uma depravação intelectual. Sua mente está ofuscada e confundida pelo pecado que o corrompeu e afastou de Deus, o autor de todo conhecimento. A mente do homem não-regenerado está em escuridão, e seus pensamentos são inúteis:

"Portanto, em nome do Senhor eu digo e insisto no seguinte: não vivam mais como os pagãos, pois os pensamentos deles não têm valor, e a mente deles está na escuridão. Eles não têm parte na vida que Deus dá porque são completamente ignorantes e teimosos." (Efésios 4:17-18)

O empirismo de Locke, o ceticismo de Hume, o estruturalismo de Derrida, o existencialismo de Kierkegaard, a fenomenologia de Husserl, as idéias de Marx, o racionalismo de Descartes, e tantos outros "ismos" que o homem produziu ao longo da história são frutos de sua confusão lógica e do seu distanciamento do Criador.

O ser humano, por causa do pecado em sua mente, geralmente não consegue pensar de forma racional e lógica, e quando o faz, parte de premissas erradas, e isso o leva a conclusões igualmente erradas.


Somente por meio da regeneração operada pelo Espírito Santo, que dá vida e santifica a mente dos eleitos, eles podem conhecer a verdade, e essa verdade os liberta da ignorância e da rebelião contra o verdadeiro conhecimento.


O Senhor Jesus Cristo disse:

"Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim." (João 14:6)


Ele é o LOGOS, o conhecimento, a razão, a lógica e a verdade. Nele, por Ele e para Ele todas as coisas foram criadas, e somente Ele pode resgatar o homem da tolice e confusão intelectual. Cristo é a verdade não apenas religiosa, mas também ética, moral, epistemológica, metafísica, científica, política, artística, filosófica e intelectual. Nele estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento.


"... e eles tenham toda a riqueza da forte convicção do entendimento, para compreenderem plenamente o mistério de Deus, Cristo, em quem todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos." (Colossenses 2:2b-3)

A Escritura ensina que para o homem começar a ter sabedoria é necessário temer a Deus. Sem esse temor, o homem é um completo ignorante, nem ao menos começou a ter qualquer tipo conhecimento verdadeiro.

"O temor do Senhor é o princípio da sabedoria; têm bom entendimento todos os que cumprem os seus preceitos; o seu louvor subsiste para sempre." (Salmo 111:10)

Por isso a Escritura afirma:

"É preciso que o coração e a mente de vocês sejam completamente renovados." (Efésios 4:23)

A ciência secular pós-moderna, que tira Deus do processo lógico, está fadada ao fracasso. É necessário que o homem se humilhe e reconheça sua impotência e incompetência em adquirir informação. Aqueles que se julgam sábios aparte de Deus são tolos, e estão enganando a si mesmos.

"Pois está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios e aniquilarei a inteligência dos instruídos. Onde está o sábio? Onde, o escriba? Onde, o inquiridor deste século? Porventura, não tornou Deus louca a sabedoria do mundo? Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura da pregação." (1 Coríntios 1:19-21)

Portanto, só há um sistema de pensamento correto, legítimo, verdadeiro e invencível: o CRISTIANISMO. Todos os outros são meras tentativas carnais e fracassadas de se chegar ao conhecimento. Nenhum deles (empirismo, marxismo, existencialismo, agnosticismo, ceticismo, racionalismo secular, etc) pode responder as questões últimas da vida, e consequentemente, nenhum deles pode dar resposta a qualquer outra pergunta, mesmo as mais simples.

Nós cristãos, que temos a mente de Cristo, podemos derrubar facilmente qualquer argumento secular contra a verdade, e massacrar qualquer filósofo não-cristão num debate. Basta nos armarmos da Escritura, e sabermos manejá-la corretamente.

"As armas que usamos na nossa luta não são do mundo; são armas poderosas de Deus, capazes de destruir fortalezas. E assim destruímos idéias falsas e também todo orgulho humano que não deixa que as pessoas conheçam a Deus. Dominamos todo pensamento humano e fazemos com que ele obedeça a Cristo." (2 Coríntios 4-5)

Venha a nós o Teu reino. Amém!

Fonte: Cristão OnLine

27 agosto 2009

A Luta dos Monstros

Por Olavo de Carvalho

Que tal descansar por uns instantes do caos político nacional, contemplando o caos intelectual do mundo? Quem sabe um breve rodeio pela confusão alheia não acabará esclarecendo um pouco a confusão local?
Semanas atrás, a TV educativa estatal americana PBS, fazendo eco a uma declaração conjunta de 67 sociedades científicas, proclamou que “praticamente todos os cientistas do mundo acreditam na teoria da evolução”. Poucos dias depois, seiscentos cientistas, pertencentes a essas sociedades e a outras tantas, divulgaram um manifesto dizendo que não acreditavam nessa teoria de maneira alguma.
O debate, evidentemente, já não é mais científico: é político, é ideológico. Carl Schmitt definia o reino da política como aquele campo de conflitos em que nenhuma arbitragem racional é possível, só restando a cada um dos contendores reunir os “amigos” contra os “inimigos”. O número de partidários de cada corrente e a manifesta inexistência de critérios de arbitragem aceitos por ambos os lados mostram que a disputa de evolucionistas e anti-evolucionistas é política, nada mais que política. No confronto, a vantagem institucional está com os primeiros. Eles dominam a maior parte dos órgãos de pesquisa e ensino, têm o apoio dos governos e o respaldo da grande mídia. Os segundos, em minoria, têm uma militância mais ativa e vêm logrando abrir espaços que, trinta anos atrás, pareciam definitivamente conquistados pelo adversário. Mas ainda estão longe de obter o que mais querem: que suas objeções sejam ensinadas nas escolas, junto com os argumentos evolucionistas. Se a evolução fosse uma teoria científica, seu próprio ensino abrangeria necessariamente o estudo dessas objeções. Mas os evolucionistas não se contentam com isso: querem que sua doutrina seja universalmente proclamada um “fato”, uma verdade terminal cuja contestação, em nada ajudando o progresso do conhecimento, deve ser suprimida como uma provocação intolerável, uma heresia, um crime.
Intelectualmente, os anti-evolucionistas têm um trunfo notável. Ao contrário do que sucede na arte militar, onde a batalha defensiva é mais fácil do que a ofensiva, nos confrontos de doutrinas o atacante entra em campo com vantagem: contra qualquer teoria que pretenda ter autoridade explicativa universal, um único exemplum in contrarium, devidamente confirmado, é de uma força explosiva ilimitada -- e contra o evolucionismo esses exemplos são tantos quantas as formas intermediárias, infinitas em princípio, faltantes para provar a evolução contínua de uma única espécie animal. Durante quase um século o evolucionismo conseguiu escapar dessa dificuldade letal por meio de dois expedientes: forjar criaturas intermediárias, vendendo-as como provas científicas, e alegar a inexistência de teorias concorrentes. Mas, com o primeiro desses truques, expôs-se ao ridículo, e com o segundo atraiu inevitavelmente a objeção de que o desconhecimento da verdade não é um argumento válido em favor da mentira.
Enquanto se mantiveram numa posição puramente crítica, os inimigos do evolucionismo podiam se considerar intelectualmente invencíveis, mas isso não os satisfazia, porque a crítica não tem sobre a psicologia das massas o poder sugestivo que têm as crenças afirmativas, mesmo falsas. Enquanto o anti-evolucionismo se refugiava na torre-de-marfim das superioridades incompreendidas, seu adversário, incapaz de fornecer em seu próprio favor senão indícios que eram invariavelmente impugnados por outros indícios, conseguia no entanto um sucesso estrondoso como “concepção do mundo”, como mito fundador do moderno Estado leigo -- seja comunista ou democrático. À medida que dinossauros e antropóides emergiam dos livros de paleontologia para os filmes de ficção científica, a imaginação popular tornou-se decisivamente “evolucionista”, e tanto mais satisfeita com a sua visão mitológica quanto mais persuadida de falar em nome da “ciência” e não da mera “fé” [no sentido mais vulgar e estereotipado destes termos].
Um dia, cansados de buscar no isolamento um abrigo contra os risos fáceis do populacho, os anti-evolucionistas decidiram trocar a certeza intelectual da crítica pela construção de um mito científico reativo, que hoje opõem ao evolucionismo sob o título de “design inteligente”. Segundo essa doutrina, o universo é coerente e harmônico demais para ter-se formado pela mera conjunção fortuita de causas físicas: deve haver uma intenção, um propósito consciente por trás de tudo. Tanto quanto o próprio evolucionismo, o design inteligente não é uma teoria científica: é uma concepção do mundo, que mistura a elementos de argumentação científica requintada o atrativo nostálgico da fé religiosa, do mesmo modo que o evolucionismo mistura pedaços de boa ciência com o apelo quase irresistível do ódio anti-religioso, portador de ofertas sedutoras como a liberação sexual, o casamento gay, a satisfação de todas as exigências do feminismo enragé e a distribuição estatal de drogas para os aficionados.
Quando Darwin ainda não existia nem como espermatozóide, Immanuel Kant já havia notado que toda teoria evolutiva das espécies animais esbarraria no problema das séries infinitas, insolúvel por definição. Os evolucionistas não perceberam isso até hoje, mas não estão nem aí. Para o seu nível de exigência intelectual, esse problema é demasiado “metafísico”. Não por coincidência, a doutrina de seus adversários também tropeça num problema “metafísico” para o qual eles não estão nem ligando. É que nenhuma coleta de indícios físicos, por mais vasta e meticulosa, pode provar a existência de um “sentido” por trás do que quer que seja. Se existe um Deus criador infinitamente perfeito, bondoso e inteligente, Ele não pode ter transmitido à criação senão uma parcela ínfima das Suas perfeições: o exame do tecido do cosmos revelará sempre tantos indícios de ordem e harmonia quanto de desordem e absurdidade. Ainda que os primeiros sejam, em princípio, superiores em número, a prova final disso requereria o conhecimento quantitativo integral de todos os fatos cósmicos sem exceção. O “significado” está sempre para além da estrutura material do significante. Se isso acontece na linguagem humana, não há razão para que seja diferente na linguagem divina. O significado de um livro, por exemplo, não pode ser alcançado pela análise físico-química do papel e da tinta, pela medição do seu formato ou pelo desenho geométrico das letras. Ele não está “no” livro: está na mente do autor e do leitor, unidos pela posse comum de procedimentos de codificação e decodificação. O sentido é, por definição, “transcendente”. Não pode ser apreendido pelo conhecimento anatômico, fisiológico ou físico-químico da imanência.
O significado do cosmos está para além do cosmos, para além do espaço e do tempo. Longe de poder ser demonstrado pela ordem racional da natureza ou da história, ele tem de ser pressuposto para que a idéia mesma dessa ordem racional se torne pensável. O filosofo americano Glenn Hughes, nesse livro maravilhoso que é Transcendence and History (University of Missouri Press, 2003), observa que, sem a idéia de um Deus transcendente, a própria concepção de uma unidade da espécie humana – para não falar da unidade da história -- seria inalcançável por falta de um molde superior unificante. O curso integral da história não pode provar ou desprovar Deus, mas sem Deus não teríamos a visão de um curso integral da história. O design inteligente não pode provar Deus porque Deus não pode ser espremido para dentro do corpo imanente do cosmos. Por mais sinais da Sua presença que se observem no universo, eles nunca provarão nada, pela simples razão de que estarão sempre misturados a sinais da Sua ausência e incomensurabilidade. Sto. Tomás já havia observado que a relação entre o conhecimento do mundo e o conhecimento de Deus não é lógica, mas analógica. A analogia é uma síntese ordenada de semelhanças e diferenças. Para que o design inteligente provasse Deus, seria preciso que as semelhanças engolissem as diferenças. O céu e a terra podem “celebrar” a glória de Deus, mas não podem contê-la em si materialmente ao ponto de tornar possível prová-la em laboratório.
Criando seu próprio mito científico, os críticos do evolucionismo abdicaram da autoridade intelectual para poder concorrer com o adversário no seu próprio terreno. Não resta dúvida de que com isso conseguiram espaço na mídia, atenção de governos e algumas vitórias judiciais modestas mas promissoras. Se isso ajudar a quebrar a carapaça dogmática de uma doutrina que pretende continuar científica sem admitir discussão científica, o resultado pode ser proveitoso. Mas, se for para reduzir o sentido do cosmos a um elemento do próprio cosmos, então o efeito último da empreitada será levar a humanidade para mais longe de Deus do que jamais poderia levá-la o materialismo puro e simples. Proclamar a divindade da imanência seria encerrar definitivamente a humanidade na prisão cósmica, seria fechar a porta dos céus.
A seriedade aparente do debate entre os evolucionistas e os adeptos do design inteligente revela, na intelectualidade acadêmica mundial – para não falar da mídia “cultural” –, uma assustadora incapacidade para a análise filosófica e uma confiança excessiva na autoridade da “ciência” como árbitro final de todas as disputas humanas.
Que é uma “ciência”, afinal? É um esforço contínuo e sistemático de reduzir a uns quantos princípios explicativos comuns, por meio de procedimentos de verificação consensualmente admitidos, os fenômenos observados dentro de um campo de realidade recortado segundo o que, de início – e antes de que se pudesse ter qualquer prova disso --, parecia ser a esfera de validade possível desses mesmos princípios. Resultado: quando a observação empírica não confirma os princípios, quase nunca se pode estar seguro de que não virão a fazê-lo amanhã ou depois; quando confirma, é muito difícil garantir que o campo não foi recortado de propósito para produzir artificialmente esse efeito. Na melhor das hipóteses, uma boa descoberta científica é um meio-termo sensato entre uma aposta no escuro e uma profecia auto-realizável. Buscar esse meio-termo é um desafio que está acima das forças de qualquer ciência em particular e transcende os limites de toda “metodologia científica” usual. Depende inteiramente da análise filosófica, para a qual a maioria dos cientistas de ofício não recebe qualquer treinamento apreciável. Sem o filtro dessa análise, a “ciência” não é uma atividade intelectualmente muito séria. Com ele, ela é freqüentemente obrigada a admitir que seu trabalho consiste num estudo cada vez mais preciso de objetos cada vez mais hipotéticos, evanescentes e inapreensíveis. Se pessoas dedicadas a um empreendimento tão incerto aparecem de repente enrijecidas em suas posições e inflamadas em suas crenças como se fossem teólogos medievais a disparar anátemas recíprocos, isso se explica pela mesma causa psicológica que incendiava as disputas medievais. Um teólogo do século XII, como um cientista de hoje, não era um simples buscador de conhecimento: era ao mesmo tempo o representante do establishment, do poder cultural supremo. O poder não discute, não dialetiza: afirma e dá ordens. Dizer que ele reprime as contradições é pouco: ele nega a existência delas. Seu ideal é tornar-se indiscernível da estrutura da realidade, personificar a força do inevitável, a lei da natureza ou a vontade de Deus. Quando o homem incumbido disso é um intelectual, um letrado, logo ele se vê prisioneiro de um conflito interior dilacerante. De um lado, a consciência que ele tem das ambigüidades, das contradições, das perguntas insolúveis. De outro, a necessidade de fingir em público uma certeza inabalável. O dilema é geralmente resolvido pelo expediente neurotizante de exagerar histericamente a ostentação de certeza. Teólogos defendendo aos gritos hipóteses que só poderiam ser confirmadas por uma nova revelação divina faziam exatamente o mesmo que os zelotes evolucionistas fazem hoje, ao demitir da profissão acadêmica o adversário propugnador de uma objeção para a qual sabem perfeitamente que não têm nenhuma resposta definitiva. Transpondo o debate da esfera racional para as decisões de autoridade, encontram uma solução política para um problema que, na origem, era intelectual e científico.
A brutalidade crescente das proclamações dogmáticas evolucionistas não é mera coincidência: ela vem junto com a instauração progressiva de uma Nova Ordem global cujo discurso legitimador é eminentemente de ordem “científica”. Prepotência globalista e autoritarismo científico são uma só e mesma coisa. A pretensão ao poder mundial absoluto tem de passar pelo desafio preliminar de dar à profissão científica uma autoridade final comparável à dos concílios. Por exemplo, é preciso impor à população a mentira idiota de que a falta de provas científicas de alguma coisa é prova cabal da inexistência dessa coisa. Esse preceito, para se sustentar de pé, exige a anuência geral a dois axiomas psicóticos: (1) a ciência já sabe tudo; (2) nada do que ela vier a descobrir amanhã pode impugnar o que ela diz hoje. A autoridade da ciência para afirmar a inexistência do que ela desconhece baseia-se na negação radical do próprio conceito de ciência, mas isso não impede que o apelo a essa autoridade tenha, na perspectiva do establishment global, uma validade jurídica inapelável. Quando um sujeito vai para a cadeia por ter dito que o homossexualismo é doença, a lei que o pune é inteiramente baseada no pressuposto de que, não havendo provas científicas do que ele diz, ele não tem o direito de conjeturar em voz alta que essas provas possam vir a ser encontradas amanhã ou depois.
A situação torna-se ainda mais desesperadoramente absurda quando a autoridade da ignorância científica é alegada como prova de algo que, por definição, está excluído do campo de investigação dessa mesma ciência. A embriologia, por exemplo, confessa não ter como distinguir entre um feto humano e um feto de chimpanzé aos três meses de gestação. Isso prova uma limitação da ciência embriológica, e não do potencial que homens e chimpanzés, já desde o início da gestação, têm para continuar a desenvolver-se e diferenciar-se depois de encerrado o processo embriológico, isto é, depois de saírem da alçada da embriologia. Não obstante, a autoridade da embriologia é usada como prova de que abortar um feto humano até os três meses não é mais grave do que fazer o mesmo com um macaquinho da mesma idade -- com a diferença de que provocar o aborto de um macaquinho dá cadeia, sem que se possa alegar nem mesmo que ele é um feto humano de três meses, descartável como uma camisinha usada. Mutatis mutandis, a antropologia exclui do seu campo o estudo das diferenças de valor entre as várias culturas, mas sua autoridade é em seguida usada pelos relativistas e multiculturalistas como prova de que essas diferenças não existem. Em suma: cada ciência fica tanto mais habilitada a emitir sentenças finais no debate público quanto mais o assunto do debate é alheio ao seu domínio de estudos.
Entre os anos 20 e 60 do século XX, as discussões entre evolucionistas e anti-evolucionistas eram polidas como qualquer outra discussão acadêmica, contrastando com as inflamadas disputas científico-teológicas oitocentistas. A Nova Ordem mundial, na sua ambição de suprimir as tradições religiosas ou subjugá-las a uma nova religião de cunho gnóstico improvisada por planejadores sociais, adotou o evolucionismo como uma de suas principais armas de ataque. Daí que o debate, subitamente politizado, tenha se tornado ainda mais feroz do que era no século XIX. Mas nem tudo é ordem e coerência no projeto globalista. Sua afeição nominal ao compromisso democrático dá margem a que os inimigos do evolucionismo também se organizem politicamente para impor a vigência do seu próprio mito.
A luta formidável dos poderes mitológicos repete a imagem bíblica de Leviatã e Behemoth, o crocodilo da rebelião que se agita no fundo das águas e o hipopótamo da ordem divina que o esmaga sob seus pés. Na Bíblia, Deus aponta de longe as duas criaturas ao perplexo Jó, advertindo-lhe que ambos são monstros temíveis. Se confinado no interior da alma, o conflito espiritual poderia levar à sabedoria. Materializado sob a forma dos poderes políticos que se entrechocam no cenário da história, torna-se fonte de sofrimento e obscuridade sem fim.

Publicado no Diário do Comércio, 26 de junho de 2006
http://www.olavodecarvalho.org/semana/060626dc.html